Saúde

Novo tratamento para menopausa amplia o arsenal terapêutico

Fezolinetanto amplia opções de tratamento para mulheres que sofrem com fogachos e suores noturnos e não podem ou não desejam fazer terapia hormonal
Mulheres que enfrentam os chamados fogachos, as ondas repentinas de calor que podem vir acompanhadas de suor intenso, vermelhidão e desconforto, ganharam uma nova opção de tratamento. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o Veoza (fezolinetanto), primeiro medicamento não hormonal desenvolvido especificamente para tratar os sintomas vasomotores associados à menopausa, como fogachos e suores noturnos.

Segundo a endocrinologista e metabologista Gisele Lorenzoni, a aprovação representa uma mudança importante na abordagem dos sintomas da menopausa, principalmente porque nem todas as mulheres são candidatas à terapia hormonal.

“Existem situações em que a mulher apresenta contraindicações ou precisa de uma avaliação individualizada de riscos e benefícios em outros tratamentos.Ter um tratamento não hormonal desenvolvido especificamente para os fogachos amplia o nosso arsenal terapêutico e permite que a escolha seja mais personalizada”, explica a médica.

Desenvolvido pela farmacêutica Astellas, o medicamento é administrado em comprimido de uso diário e amplia as alternativas disponíveis para mulheres que apresentam sintomas intensos durante a menopausa, mas não podem utilizar terapia hormonal ou preferem não recorrer a esse tipo de tratamento.

Diferentemente da terapia de reposição hormonal, que utiliza hormônios para compensar a redução do estrogênio característica da menopausa, o fezolinetanto atua em uma via neurológica envolvida na regulação da temperatura corporal. O medicamento bloqueia os receptores da neurocinina B (NK3) no hipotálamo, uma região do cérebro que participa do controle da temperatura do organismo.

Durante a menopausa, a queda dos níveis de estrogênio pode alterar esse mecanismo de regulação, tornando o sistema mais sensível às variações térmicas e favorecendo o surgimento dos fogachos. Ao atuar sobre os receptores NK3, o fezolinetanto busca reduzir a atividade dessa via e, consequentemente, a frequência e a intensidade dos episódios de calor.

De acordo com a endocrinologista, o mecanismo deste medicamento é diferente da reposição hormonal, pois o  fezolinetanto não repõe estrogênio. “Ele atua diretamente em uma via cerebral relacionada à regulação da temperatura, bloqueando os receptores da neurocinina B. É uma abordagem direcionada ao mecanismo dos fogachos e, por isso, representa uma alternativa interessante para mulheres que não podem ou não querem utilizar hormônios”, explica Gisele.

Menopausa não é apenas uma questão de calor

Os fogachos e os suores noturnos estão entre os sintomas mais conhecidos da menopausa, mas a transição menopausal pode provocar uma série de outras mudanças no organismo. Alterações no sono, humor, concentração, composição corporal e metabolismo também podem ocorrer nessa fase.

Para a especialista, é importante entender que o tratamento dos sintomas deve considerar a mulher como um todo e não apenas um sintoma isolado. A menopausa é uma fase de profundas mudanças hormonais e metabólicas. A redução do estrogênio, por exemplo, pode estar associada a alterações na distribuição da gordura corporal, perda de massa muscular, mudanças no metabolismo e aumento de alguns fatores de risco cardiovascular.

Segundo a médica, o tratamento não deve ser pensado de forma isolada. Por isso, quando uma mulher chega ao consultório com fogachos, precisamos avaliar também sono, peso, composição corporal, glicemia, perfil lipídico e saúde cardiovascular”, pondera.

Os fogachos, além do desconforto, podem interferir diretamente na qualidade de vida. Quando ocorrem durante a noite, os chamados suores noturnos podem fragmentar o sono e contribuir para cansaço e dificuldade de concentração durante o dia.

Nesse cenário, a especialista destaca que a chegada de uma alternativa não hormonal pode ser especialmente relevante para mulheres que apresentam sintomas moderados a intensos.”Para algumas mulheres, os fogachos são apenas um incômodo passageiro. Para outras, eles são frequentes, intensos e chegam a comprometer o trabalho, o sono, a vida social e a qualidade de vida. A possibilidade de contar com uma alternativa não hormonal especificamente desenvolvida para esses sintomas é muito positiva, mas a indicação deve sempre ser individualizada”, ressalta a médica Gisele Lorenzoni.

Novo medicamento não substitui avaliação médica

Apesar da aprovação do fezolinetanto, a especialista alerta que o medicamento não deve ser encarado como uma opção universal para todas as mulheres na menopausa. A escolha do tratamento depende da intensidade dos sintomas, do histórico clínico e dos fatores de risco individuais.

A terapia hormonal, quando corretamente indicada, continua sendo uma alternativa importante para o tratamento dos sintomas da menopausa. A decisão sobre utilizá-la ou não deve considerar idade, tempo desde a menopausa, histórico pessoal e familiar e presença de doenças cardiovasculares, câncer de mama e outras condições que possam interferir na segurança do tratamento.

“É importante deixar claro que a chegada do fezolinetanto não significa que a terapia hormonal deixou de ser indicada. São estratégias diferentes. A reposição hormonal continua tendo seu espaço para mulheres que podem utilizá-la e que, após uma avaliação individualizada, optam por esse tratamento. O que temos agora é uma nova possibilidade para aquelas que não são candidatas à terapia hormonal ou que preferem uma abordagem não hormonal”, esclarece a endocrinologista e metabologista.

Outro ponto destacado por ela, é a necessidade de acompanhamento durante o tratamento. Como qualquer medicamento, o fezolinetanto possui indicações, contraindicações e possíveis efeitos adversos que precisam ser avaliados pelo profissional de saúde.

“Mesmo sendo um tratamento não hormonal, isso não significa que seja um medicamento que possa ser utilizado sem acompanhamento. A paciente precisa passar por avaliação médica para verificar se essa é realmente a melhor opção para o seu caso, além de realizar o acompanhamento necessário durante o uso. O tratamento da menopausa deve ser seguro, individualizado e baseado nas características e necessidades de cada mulher”, orienta.

A aprovação do novo medicamento representa, portanto, uma ampliação das possibilidades terapêuticas para mulheres que convivem com os sintomas vasomotores da menopausa. Para a endocrinologista, o avanço reforça uma tendência importante na medicina: oferecer diferentes caminhos de tratamento para que cada paciente possa receber uma abordagem adequada ao seu perfil.

“A medicina da menopausa caminha cada vez mais para uma abordagem individualizada. Não existe uma única estratégia que funcione para todas as mulheres. Quanto mais opções terapêuticas seguras e baseadas em evidências tivermos, maior será a possibilidade de encontrar uma solução adequada para cada paciente”, conclui Gisele.

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