Flávio Rafalski: alta-costura transforma sonhos em vestidos exclusivos
Estilista fala sobre trajetória, moda sob medida, concursos de beleza, Carnaval e a importância de respeitar a personalidade de cada mulher
A moda, para o estilista Flávio Rafalski, vai muito além de vestir. É uma forma de contar histórias, valorizar a individualidade e transformar sonhos em peças únicas. Com atuação em Vitória, o profissional se consolidou no universo da alta-costura e é conhecido pelo trabalho desenvolvido para mulheres que buscam vestidos exclusivos para momentos especiais.
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Em entrevista à jornalista Luciene Costa, no podcast Conversa Eklética, Flávio contou detalhes de sua trajetória, desde a infância no Maranhão, quando acompanhava o trabalho da mãe costureira, até a construção de uma carreira marcada por vestidos de festa, concursos dos Misses, Carnaval e produções para grandes eventos da sociedade capixaba.
“Eu comecei tudo como autodidata”, contou o estilista, que chegou ao Espírito Santo aos 19 anos. A relação com a costura, porém, começou muito antes. Filho de uma costureira, ele cresceu observando o universo dos tecidos e das máquinas, embora, naquela época, a atividade fosse cercada de preconceitos quando exercida por meninos.
Ainda jovem, Flávio já demonstrava interesse pela criação. Escolhia tecidos e modelos para as próprias roupas e dizia à mãe exatamente como gostaria que as peças fossem. Anos depois, esse olhar intuitivo se transformaria em profissão.
Do boca a boca à alta-costura
A entrada profissional no mundo da moda aconteceu de maneira espontânea. Flávio começou produzindo vestidos para amigas que participavam de concursos de beleza. Vieram os primeiros bordados, as primeiras criações e, com eles, as indicações.
O tradicional “boca a boca” fez o trabalho crescer e o nome do estilista passou a circular entre mulheres que procuravam peças diferenciadas.
Para Flávio, uma das marcas de seu trabalho está justamente no cuidado com o acabamento e na capacidade de compreender a essência de cada cliente.
“Eu sempre tive um olhar muito aguçado, um cuidado muito grande com o projeto do início ao fim”, afirmou.
A experiência prática posteriormente ganhou o respaldo acadêmico. Flávio cursou bacharelado em Moda na FAESA, em Vitória. O percurso foi interrompido por períodos de trabalho no exterior e pela pandemia, mas o estilista fez questão de concluir a graduação.
Para ele, a formação trouxe conhecimentos que ajudaram a organizar tecnicamente aquilo que já fazia de maneira intuitiva.
Vestir sonhos, e não apenas corpos
No ateliê, cada criação começa muito antes da máquina de costura. O primeiro passo é conversar com a cliente e compreender o que ela deseja, como pretende ser vista e, principalmente, com o que se sente confortável.
A proposta é fugir da ideia de simplesmente reproduzir uma roupa vista em uma revista ou nas redes sociais.
“Uma cópia específica daquela peça muitas vezes não dá certo. É uma arte recriada”, explicou.
Segundo o estilista, uma roupa precisa considerar o biotipo, a personalidade, a ocasião e o gosto de quem irá usá-la. Por isso, o atendimento presencial é considerado fundamental.
A cliente acompanha diferentes etapas do processo, desde a escolha do tecido e da modelagem até as provas e os ajustes finais.
Para Flávio, esse contato também permite construir uma relação de confiança. Muitas clientes acabam retornando para outras ocasiões e, com o tempo, tornam-se amigas e parceiras.
“Eu não tenho público específico. Eu atendo sonhos, realizo desejos”, resumiu.
Primeiro aluguel ganha espaço
Uma das tendências que vem ganhando força no mercado de festas é o primeiro aluguel. Em vez de comprar uma peça exclusiva e depois deixá-la guardada no armário, a cliente pode usar o vestido em uma ocasião especial e devolvê-lo posteriormente ao ateliê.
Flávio afirma que atualmente cerca de 99% de suas clientes optam por essa modalidade.
A mudança também acompanha a transformação provocada pelas redes sociais. Com fotos e vídeos circulando rapidamente, vestidos muito marcantes acabam ficando associados a uma determinada ocasião.
O primeiro aluguel, além de possibilitar o acesso a uma peça exclusiva, também favorece a chamada moda circular. Um vestido pode ser posteriormente ajustado, remodelado e ganhar uma nova configuração para outra mulher.
“Muitas das vezes, uma roupa que foi usada pode ser reestruturada”, explicou.
Assim, mangas podem ser retiradas ou acrescentadas, detalhes podem ser modificados e a modelagem pode ser adaptada às características de uma nova cliente.
Misses e Carnaval
Entre os trabalhos que mais permitem ao estilista explorar a criatividade estão os concursos de beleza. Flávio atua na produção de candidatas e destaca a grandiosidade de eventos como o Miss Brasil Gay, realizado em Juiz de Fora, que reúne representantes de diferentes estados.
O universo dos concursos, segundo ele, movimenta uma cadeia de profissionais e também a economia das cidades que recebem esses eventos, envolvendo hotéis, restaurantes, salões de beleza, maquiadores, cabeleireiros e estilistas.
No Espírito Santo, o estilista também acompanha concursos e eventos de beleza, além de participar ativamente das produções ligadas ao Carnaval.
Para Flávio, o Carnaval capixaba é uma manifestação cultural de grande importância e uma oportunidade para artistas e profissionais mostrarem seu trabalho.
As roupas usadas por musas, rainhas, destaques e integrantes das agremiações ajudam a construir o espetáculo e movimentam diferentes setores da economia.
“O nosso estado é muito rico e precisa cada vez ser mais valorizado”, destacou.
Debutantes de volta à cena
Outro segmento que voltou a ganhar força é o das festas de 15 anos. Depois de um período em que viagens internacionais passaram a ocupar espaço nas comemorações, as grandes festas de debutantes retornaram com força.
Flávio vê nesse universo uma possibilidade especial de trabalhar com sonhos.
O projeto pode envolver diferentes momentos da festa: a roupa de recepção dos convidados, o vestido da valsa e até a produção para a pista de dança.
A mãe da debutante também costuma participar do processo e, em muitos casos, ganha uma produção especial para acompanhar a filha.
Para o estilista, a festa de 15 anos representa uma experiência compartilhada entre mãe e filha, marcada por expectativa, emoção e realização.
Moda não é seguir tendência
Durante a entrevista, Flávio também fez uma reflexão sobre a relação entre moda e tendências.
Para ele, estar na moda não significa necessariamente usar aquilo que está em evidência nas redes sociais.
“A moda é circular”, afirmou, lembrando que tecidos, cores e modelagens que deixam de ser populares em determinado período podem voltar anos depois.
Mais importante do que acompanhar tendências, segundo o estilista, é entender aquilo que valoriza cada mulher.
Uma roupa pode estar entre as maiores tendências do momento, mas, se não fizer a mulher se sentir bem, perde sua função.
“Nem tudo que é tendência fica bem em você”, destacou.
A mulher no centro da criação
Ao longo da carreira, Flávio construiu uma relação próxima com seu público feminino. Para ele, a mulher contemporânea deve ter liberdade para ocupar os espaços que desejar e escolher como quer se apresentar.
A roupa, nesse contexto, passa a ser uma extensão da personalidade.
O estilista defende que cada mulher deve conhecer seus gostos, reconhecer aquilo que a deixa confortável e ter liberdade para experimentar.
“Ela tem que ser mais autêntica em todos os sentidos”, afirmou.
A proposta também vale para mulheres de diferentes idades. Na visão do profissional, a idade deixou de ser um limite para a moda de festa. O que importa é como cada pessoa deseja viver e se apresentar.
Olhar para o mundo sem esquecer o Brasil
A busca por conhecimento é outro ponto presente na trajetória de Flávio. Recentemente, o estilista esteve na Europa, passando por países como Itália e Inglaterra, onde buscou referências e participou de um curso voltado à técnica de corseteria.
O conhecimento adquirido fora do país deve ser incorporado ao trabalho desenvolvido em Vitória.
A experiência também serviu para reforçar uma percepção: o Brasil possui profissionais e materiais de alto nível e é reconhecido internacionalmente pela criatividade e pela qualidade de sua mão de obra.
Para Flávio, estar conectado ao que acontece no mundo é importante, mas sem perder a identidade brasileira.
Um artista em constante transformação
Ao falar sobre o futuro, o estilista não descarta novas experiências internacionais. Existe a possibilidade de passar alguns meses na Europa em 2027, conciliando aprendizado e trabalho.
A ideia é trazer novas técnicas e referências para o ateliê e, consequentemente, para suas clientes.
Com uma carreira construída inicialmente de forma autodidata e posteriormente fortalecida pela formação acadêmica, Flávio Rafalski segue apostando na combinação entre técnica, criatividade e, principalmente, escuta.
No fim das contas, seu trabalho não começa no tecido e nem termina na passarela. Começa no desejo de uma mulher e termina quando ela se olha no espelho e se reconhece naquilo que veste.
Como ele próprio define, seu ateliê não vende apenas roupas. Vende a realização de sonhos.
O episódio completo do Podcast Conversa Eklética está disponível nas plataformas digitais no portal e nas redes sociais.
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