Em um marco histórico para a medicina do Espírito Santo, o Hospital Santa Rita consolida seu protagonismo ao realizar o primeiro transplante de medula óssea alogênico com células coletadas em centro cirúrgico. O procedimento foi feito em um jovem de 21 anos com aplasia medular. A coleta foi realizada em um doador aparentado (irmão), por meio de múltiplas punções no osso da bacia bilateralmente. O volume coletado, aproximadamente 1000 ml, foi infundido no receptor no mesmo dia. Todos passam bem e já tiveram alta hospitalar.
“Demos um salto qualitativo na forma como tratamos doenças hematológicas graves no estado, ampliando as possibilidades terapêuticas e trazendo perspectivas de cura para pacientes. Essa conquista reflete o amadurecimento da equipe e nosso compromisso com a ciência, a inovação e, sobretudo, com a vida”, diz Marcelo Aduan, hematologista e coordenador do Serviço de Onco-Hematologia e Transplante de Medula Óssea do Hospital Santa Rita.
Além disso, o hospital alcança a expressiva marca de 903 transplantes realizados. “Iniciamos nossa contagem regressiva para o milésimo transplante. Somos o centro mais capacitado do estado para a realização dessas terapias”, enfatiza o médico.
E as novidades não param por aí. Segundo ele, em breve, a instituição ampliará o leque de opções terapêuticas com o tratamento com Car-T cells, utilizando as células de defesa do próprio sistema imunológico do paciente, modificadas em laboratório, para reconhecer e atacar células doentes, principalmente as cancerígenas.
SOBRE A APLASIA MEDULAR – A aplasia medular, segundo o médico, é uma condição rara e grave em que a medula óssea – responsável pela produção das células do sangue – deixa de funcionar adequadamente. Com isso, o organismo passa a produzir menos plaquetas, glóbulos vermelhos e glóbulos brancos, o que pode causar anemia, maior risco de infecções, sangramentos e hematomas pelo corpo.
Ela pode surgir por diferentes razões, como alterações autoimunes – quando o próprio corpo ataca a medula -, exposição a substâncias tóxicas, alguns medicamentos, infecções virais e até sem motivo definido. “O tratamento depende da gravidade, podendo incluir medicamentos imunossupressores e, quando estes falham, o transplante de medula óssea é a única opção curativa”, explica Marcelo Aduan.
No Brasil, o primeiro transplante alogênico foi realizado no Paraná em um paciente portador de aplasia medular. “Infelizmente, em 1979, os recursos não eram os que temos hoje e o paciente faleceu”, lamenta o hematologista.
SOBRE O TRANSPLANTE ALOGÊNICO – No transplante alogênico, as células-tronco hematopoéticas – que são como as “células-mãe” que ficam dentro da medula óssea e têm a função de produzir todas as células do sangue – vêm de um doador compatível. Normalmente, de um irmão ou de uma pessoa que tenha se cadastrado no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome).
Essas células podem ser retiradas das seguintes formas:
1 – Da própria medula óssea – coletada diretamente do osso da bacia – O doador recebe anestesia geral ou raquidiana para não sentir dor. Em seguida, o médico faz pequenas punções no osso da bacia, na região do quadril, com uma agulha especial e retira a medula óssea líquida, que é rica em células-tronco. “Depois da coleta, o doador pode sentir um leve desconforto ou dor na região, como se tivesse levado uma pancada. Geralmente, recebe alta no mesmo dia ou no dia seguinte e se recupera rapidamente, retomando a rotina em poucos dias. Vale explicar que o corpo repõe naturalmente a medula retirada, então o organismo do doador não fica prejudicado”, ressalta o hematologista Marcelo Aduan.
2 – Por meio de sangue periférico – não é necessário fazer cirurgia. O doador recebe, por alguns dias, um medicamento que faz com que as células da medula “saiam” para a corrente sanguínea. Depois, ele é conectado a uma máquina – parecida com a usada para doação de plaquetas – que retira o sangue, separa apenas as células-tronco e devolve o restante para o corpo. É um procedimento menos invasivo, feito por meio de punção na veia (como um exame de sangue) e geralmente é seguro e bem tolerado.
3 – Por meio do sangue de cordão umbilical – Essa coleta é rápida e não causa dor nem para a mãe nem para o bebê. Ela acontece logo após o nascimento. “Depois que o bebê nasce e o cordão umbilical é cortado, o profissional de saúde utiliza uma agulha para retirar o sangue que ainda está no cordão e na placenta. Esse sangue, que normalmente seria descartado, é rico em células-tronco, que podem ser usadas em tratamentos, como o transplante de medula óssea”, explica Marcelo Aduan. O material coletado é armazenado em um banco especializado para uso futuro, seja pelo próprio paciente ou por outra pessoa compatível.
POR QUE USAR A MEDULA ÓSSEA COMO FONTE? – Na aplasia medular, a medula óssea como fonte tem vantagens importantes, como menor risco de doença do enxerto contra o hospedeiro – depois do transplante, o paciente recebe células de outra pessoa que vão formar um novo sistema de defesa no corpo. Em alguns casos, esse “novo sistema” estranha o organismo do paciente e começa a atacá-lo, como se fosse algo invasor, afetando a pele, o intestino e o fígado. Mas hoje há formas de prevenir e tratar essas possíveis reações.
Outro benefício é a boa taxa de “pega” (quando a nova medula começa a funcionar). Além disso, é preferida especialmente em pacientes jovens, como o caso registrado no Hospital Santa Rita.
ETAPAS DO PROCEDIMENTO – Para que todo o procedimento dê certo, é necessário respeitar algumas fases. Veja a seguir:
1 – Condicionamento – uso de quimioterapia (às vezes com radioterapia) para destruir a medula doente e preparar o organismo
2 – Infusão das células-tronco – as células do doador são infundidas por via intravenosa – como se fosse uma transfusão
3 – Fase de enxertia – as células migram para a medula óssea e começam a produzir sangue – geralmente entre duas e quatro semanas
Nessas etapas, o hematologista comenta que é preciso redobrar os cuidados com processos infecciosos, como a doença do enxerto contra o hospedeiro, falha de enxertia e toxicidade dos quimioterápicos.
HISTÓRICO DE PIONEIRISMO NO ES – O Hospital Santa Rita foi o primeiro, no Espírito Santo, a realizar:
1 – Transplante autólogo (2008) – nesse procedimento, as próprias células-tronco do paciente são coletadas, guardadas e depois reinfundidas para restaurar a produção de sangue após um tratamento intenso
2 – Transplante alogênico (2018) – quando o paciente recebe células-tronco de outra pessoa compatível para substituir sua medula óssea doente
3 – Transplante haploidêntico aparentado (2023) – quando o paciente recebe células-tronco de um familiar parcialmente compatível (como pai, mãe ou filho) para substituir a medula óssea doente
4 – Transplante não aparentado (2024) – quando o paciente recebe células-tronco de um doador compatível que não é da família
A instituição é referência para procedimentos de transplante de medula óssea via SUS e na saúde suplementar. “Alcançar mais de 900 transplantes reforça que estamos no caminho certo, consolidando um serviço sólido de alta complexidade, preparado e em constante evolução. Nós respeitamos nossos pacientes e temos o compromisso com a verdade”, conclui Marcelo Aduan.
CONGRESSO – Nos dias 14 e 15 de maio, o Hospital Santa Rita realizará a quarta edição do seu Congresso de Oncologia, no Centro de Convenções de Vitória. O hematologista Marcelo Aduan será um dos palestrantes ao lado de Catherine Moura, CEO da Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale). Juntos, vão abordar o tema “Desafios socioeconômicos do paciente submetido ao transplante de medula óssea.”
Este ano, o evento trará um formato inovador, o auditório silencioso, alinhado às tendências mais modernas de encontros científicos na área da saúde. “Diferentes apresentações acontecem ao mesmo tempo e num único ambiente, permitindo que o público escolha qual conteúdo deseja acompanhar. Cada participante recebe um fone de ouvido individual, por meio do qual pode selecionar o canal correspondente à palestra de seu interesse”, explicou Simone Duarte, que é gerente do Instituto de Ensino, Pesquisa e Inovação Santa Rita e também está à frente da organização do Congresso.
“Além de tornar o evento mais dinâmico, o formato permite oferecer mais conteúdos em menos tempo. Dessa maneira, cada participante pode montar sua própria experiência, escolhendo as palestras mais alinhadas aos seus interesses e áreas de atuação”, finaliza Marilucia Dalla, presidente da Afecc-Hospital Santa Rita. As inscrições estão abertas e podem ser feitas pelo site jacredenciei.com.br.