Valorização imobiliária, crescimento econômico e chegada de novos moradores impulsionam o setor, enquanto juros elevados desafiam as vendas
O mercado imobiliário do Espírito Santo vive um momento de expansão na construção civil, mesmo diante do cenário de juros elevados e do encarecimento do financiamento da casa própria. Dados atualizados do setor apontam que o estado já ultrapassou a marca de 21 mil unidades residenciais em construção, revelando a força dos investimentos imobiliários e a expectativa das incorporadoras em relação à demanda por novos imóveis.
As informações foram apresentadas por Eduardo Borges, diretor de Economia e Estatística do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Espírito Santo (Sinduscon-ES), durante uma análise sobre o atual cenário do mercado imobiliário capixaba.
O levantamento mais recente considera os empreendimentos que começaram a ser construídos no primeiro semestre de 2026. O número representa uma atualização em relação ao censo de 2025, divulgado no primeiro semestre deste ano, que registrava 2.469 unidades em determinado recorte do levantamento.
O volume expressivo de imóveis em construção não significa que todas essas unidades foram lançadas ou vendidas recentemente. Segundo a análise apresentada, o ciclo de construção de um empreendimento imobiliário costuma durar, em média, quatro anos.
Isso significa que muitos apartamentos que estão sendo construídos atualmente podem ter sido lançados e comercializados ainda na planta há alguns anos. Dessa forma, o número de unidades em obras reflete uma sequência de lançamentos realizados ao longo do tempo, e não apenas o comportamento do mercado nos últimos meses.
Ainda assim, o setor mantém um ritmo de lançamentos superior ao de unidades concluídas.
No primeiro semestre de 2026, foram lançadas aproximadamente 3.500 unidades, enquanto pouco menos de 2 mil foram entregues. Essa diferença contribui para o aumento do número de imóveis em construção no Espírito Santo.
A análise apresentada aponta que o volume de unidades em obras vem crescendo cerca de 10% a cada semestre nos últimos anos.
Um dos fatores que ajudam a explicar a expansão da construção civil no estado é a valorização dos imóveis, especialmente em municípios da Grande Vitória.
Vitória e Vila Velha aparecem como áreas de destaque no mercado imobiliário capixaba, impulsionadas por indicadores de desenvolvimento, qualidade de vida e crescimento econômico.
De acordo com a avaliação apresentada pelo setor, a valorização dos imóveis no Espírito Santo tem superado a inflação dos custos da construção em determinados períodos. Essa diferença pode favorecer as margens das incorporadoras e estimular novos investimentos.
O crescimento econômico do estado, que vem apresentando desempenho positivo em relação à média nacional em diferentes períodos, também contribui para a atratividade do mercado.
Outro elemento apontado é a chegada de novos moradores, principalmente de estados vizinhos, como o Rio de Janeiro, além de pessoas de outras regiões do país. O movimento amplia a demanda por moradia e pode pressionar os preços dos imóveis.
A taxa Selic, que estava em 14,75% ao ano em parte de 2026, é um dos fatores que influenciam o custo do financiamento imobiliário. Com juros mais elevados, as parcelas podem ficar mais caras e o acesso ao crédito se torna mais difícil para parte dos compradores.
Mesmo assim, o cenário não interrompeu os lançamentos e as obras no Espírito Santo.
A explicação está no fato de que a decisão de construir um empreendimento não depende apenas das condições de venda do momento. Os projetos são planejados com antecedência, e o ciclo de construção pode se estender por vários anos.
Além disso, a valorização dos imóveis e a perspectiva de demanda futura contribuem para a decisão das empresas de manter os investimentos.
O setor, porém, faz uma distinção importante: o momento favorável para construir não significa necessariamente que este seja o melhor momento para comprar ou vender um imóvel.
O comportamento das vendas também varia conforme o padrão dos empreendimentos.
Nos últimos meses, o segmento econômico apresentou maior intensidade de vendas em comparação com o mercado de alto padrão. Um dos fatores associados a esse movimento é o impacto dos juros sobre os diferentes perfis de compradores.
Os imóveis voltados ao público de renda média e alta costumam depender mais das condições tradicionais de financiamento. Já o segmento econômico conta, em muitos casos, com as condições do programa Minha Casa, Minha Vida, incluindo subsídios e taxas de juros diferenciadas, conforme as regras e o enquadramento de cada família.
Essa diferença ajuda a explicar por que a elevação dos juros pode afetar de maneira distinta os diversos segmentos do mercado imobiliário.
Apesar do crescimento das obras, a avaliação apresentada pelo setor é de que o estoque de imóveis permanece em níveis considerados relativamente saudáveis.
A estimativa mencionada aponta para aproximadamente 17 a 18 meses de estoque de imóveis em construção.
Esse indicador ajuda a acompanhar o equilíbrio entre a oferta de unidades e o ritmo de comercialização. Quanto maior o tempo necessário para vender os imóveis disponíveis, maior pode ser a pressão sobre o caixa das incorporadoras.
No Espírito Santo, a leitura apresentada é de que o aumento das obras não deve ser interpretado automaticamente como excesso de oferta ou como sinal de que as vendas estejam crescendo na mesma proporção.
O mercado segue sujeito a oscilações conforme o cenário econômico, as condições de crédito e o comportamento dos compradores.
O avanço dos empreendimentos também aumenta a necessidade de trabalhadores especializados.
A falta de mão de obra é apontada como um dos principais desafios enfrentados atualmente pelas empresas da construção civil no estado.
Segundo a avaliação do setor, o Espírito Santo está próximo do pico histórico de trabalhadores empregados na construção civil. O crescimento das obras exige que as empresas busquem estratégias para atender à demanda e manter os cronogramas.
Entre as alternativas utilizadas estão a retenção de profissionais, a terceirização de serviços e a contratação de empresas para execução de empreitadas globais.
A escolha do modelo de contratação depende da estratégia de cada construtora e incorporadora.
O cenário apresentado revela um mercado imobiliário que continua atraindo investimentos, mesmo em um ambiente de crédito mais caro.
A combinação entre valorização dos imóveis, crescimento econômico, chegada de novos moradores e lançamentos realizados nos últimos anos ajuda a explicar o volume de unidades atualmente em construção.
Por outro lado, os juros elevados continuam sendo um fator de atenção para quem pretende financiar a casa própria, especialmente nos empreendimentos de médio e alto padrão.
A expansão da construção civil, portanto, não deve ser confundida com uma garantia de aumento imediato nas vendas. O setor trabalha com projetos de longo prazo, enquanto os compradores enfrentam condições financeiras que podem variar ao longo do tempo.
Para quem pretende adquirir um imóvel, a análise das taxas de financiamento, do valor da entrada, das condições de pagamento e do orçamento familiar continua sendo fundamental.
Números do mercado imobiliário no Espírito Santo
- Mais de 21 mil: unidades em construção no estado, conforme a atualização apresentada para o primeiro semestre de 2026.
- 3.500: unidades lançadas aproximadamente no primeiro semestre de 2026.
- Pouco menos de 2 mil: unidades entregues no mesmo período.
- 17 a 18 meses: estimativa de estoque de imóveis mencionada na análise.
- Cerca de 10%: crescimento semestral aproximado do número de unidades em construção nos últimos anos.
- Quatro anos: duração média estimada do ciclo de construção de um empreendimento imobiliário.
Fonte: informações apresentadas por Eduardo Borges, diretor de Economia e Estatística do Sinduscon-ES, em análise sobre o mercado imobiliário capixaba. Os números referem-se aos recortes e períodos mencionados no material de origem.