Artigo Geral

ARTIGO – Arte, Infância e Literatura

Em “A traição das imagens” (1929), o artista belga surrealista René Magritte apresenta a figura de um cachimbo acompanhado da frase “Ceci n´est pas une pipe” – “Isto não é um cachimbo”. A obra é uma afirmação sobre a natureza da linguagem e a representação. Nessa perspectiva, nada é o que parece. Assim, o que vemos, lemos ou ouvimos, por exemplo, é percebido pelos sentidos, pelo mundo simbólico associado.

Essa ideia vai ao encontro da literatura para as infâncias. Isso, uma vez que essa última combina texto, imagem e materialidade. Assim como o artista nos convida à refletir sobre o que vemos, a literatura para as infâncias nos convoca a reconhecer o jogo simbólico da linguagem e, ainda, a nos divertir com ele.

Nessa direção, a literatura para as infâncias é, por natureza, território do brincar, do faz de conta, da suspensão da realidade, da imaginação. Um livro pode dizer que um coelho branco usa colete e carrega um relógio ou que uma criança dirige carros com volantes feito das tampas de panelas. A exemplo do observador da obra de Magritte, as pequenas e os pequenos compreendem que há ali uma mediação simbólica. O que importa, nesse caso, não é a fidelidade ao real, mas a capacidade da linguagem, qualquer que seja, de criar mundos possíveis.

Existe uma relação entre o que Magritte propõe e o modo como muitos livros infantis exploram a tensão entre imagem e texto. Há momentos nos quais o que é dito não combina com o que é mostrado. Essa controvérsia pode produzir sentidos ricos, poéticos ou irônicos. Nos livros Onde vivem os monstros, (1963), clássico de Maurice Sendak, e O livro com um buraco (2014), obra interativa de Hervé Tullet, texto e imagem se entrelaçam em uma dança interpretativa que exige atenção, sensibilidade e leitura ativa.

Outro destaque importante é que a obra de Magritte valoriza o pensamento crítico e a boa literatura para as infâncias – aquela que respeita a inteligência da criança convidando-a a interpretar, duvidar e imaginar. Aquela que, inclusive, desafia a pequena leitora e o pequeno leitor a repensar o que é um livro, o que é leitura e como interagimos com os signos.

Tanto Magritte quanto a literatura para as infâncias dialogam com o pensamento filosófico, sem perder a sutileza e o encantamento. Logo,“isso é ou não é um cachimbo?” se transforma em um convite para pensar: o que é real? o que é representação? como damos sentido ao que vemos? Questões que também atravessam a infância, período do desenvolvimento marcado, fortemente, pela produção de sentido, pela curiosidade e ousadia diante do mundo.

Assim, ao aproximarmos A traição das imagens da literatura para as infâncias, percebemos que ambas operam com um princípio comum: a consciência de que toda linguagem é construção. E que, ao brincar com imagens e palavras, abrimos espaço não apenas para o imaginário, mas para a construção do pensamento — crítico, criativo e sensível.

Isso, nem as telas, de quaisquer proporções, e nem as “alexas”, assistentes virtuais sob comando da voz, são capazes de fazer para e pelas crianças pequenas. Só a humanidade tem a capacidade e a necessidade de fabular. A literatura é a casa dessa humanidade e ela começa na infância: tempo da artesania da criação. Importa que, cada vez mais, possamos investir na tríade Arte, Infância e Literatura, como relação interdependente, em casa, na escola e para além dela.

 

Lilian Menenguci
Escritora e professora Drª em Educação

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