Pesquisa realizada na Sardenha, na Itália, indica que características emocionais e sociais estão entre os fatores associados ao envelhecimento bem-sucedido
Quando o assunto é longevidade, alimentação equilibrada e atividade física costumam ocupar o centro das discussões. No entanto, uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de Cagliari, na Itália, mostra que a forma como uma pessoa pensa, se relaciona e enfrenta os desafios da vida também pode exercer um papel importante para chegar aos 100 anos com qualidade de vida.
O estudo, publicado na revista científica International Journal of Applied Positive Psychology, avaliou idosos que vivem na chamada “zona azul” da Sardenha, região conhecida pela elevada concentração de centenários. Os pesquisadores compararam esse grupo com moradores de localidades próximas, com perfil semelhante de idade, escolaridade e condição socioeconômica, mas fora da área reconhecida pela longevidade.
Os participantes passaram por avaliações cognitivas, psicológicas e de personalidade. A análise teve como base o modelo conhecido como “Big Five”, que reúne cinco grandes traços da personalidade: abertura para novas experiências, conscienciosidade, extroversão, amabilidade e neuroticismo.
Os resultados mostraram que os idosos da zona azul apresentavam níveis mais elevados de abertura para experimentar novas situações, maior organização e responsabilidade, além de características ligadas à empatia e à cooperação. Também demonstraram melhor capacidade para lidar com situações adversas, maior competência emocional e participação mais frequente em atividades sociais, cognitivas e de lazer. Já níveis mais elevados de neuroticismo, característica associada à ansiedade, instabilidade emocional e preocupação excessiva, estiveram relacionados a uma pior percepção da qualidade de vida.
Para a psicóloga da Bluzz Saúde, Marília Zanette, a pesquisa mostra que a saúde mental deve ser considerada um dos pilares do envelhecimento saudável.
“Hoje sabemos que viver mais não depende apenas da ausência de doenças. A maneira como administramos nossas emoções, construímos relacionamentos e enfrentamos as dificuldades do cotidiano influencia diretamente nossa saúde física e mental ao longo dos anos. Pessoas emocionalmente mais flexíveis costumam desenvolver estratégias mais saudáveis para lidar com o estresse, o que favorece o bem-estar.”
Segundo a especialista, embora parte da personalidade seja formada desde cedo, diversos comportamentos podem ser desenvolvidos durante a vida.
“Traços como abertura para novas experiências, capacidade de adaptação e inteligência emocional podem ser estimulados. Buscar novos aprendizados, cultivar vínculos afetivos, manter uma rotina com propósito e cuidar da saúde mental são atitudes que fortalecem esses recursos e contribuem para uma vida mais equilibrada.”
Os achados também reforçam a importância da convivência social. Os pesquisadores observaram que os idosos da zona azul apresentavam maior satisfação com seus relacionamentos e participavam com mais frequência de atividades que estimulavam o corpo e a mente.
Marília também explica que esse aspecto é respaldado por diversas pesquisas sobre envelhecimento.
“As conexões sociais funcionam como um fator de proteção para a saúde. Elas reduzem a sensação de isolamento, favorecem o equilíbrio emocional e estimulam funções cognitivas. Envelhecer de forma saudável envolve manter o cérebro ativo, o corpo em movimento e os laços afetivos fortalecidos.”
A psicóloga destaca que os resultados da pesquisa italiana convergem com evidências já consolidadas por estudos internacionais, como o Harvard Study of Adult Development, que acompanha participantes há mais de 80 anos e identifica a qualidade dos relacionamentos como um dos principais fatores associados à saúde, felicidade e longevidade. Outro levantamento, publicado na revista científica PLOS Medicine, concluiu que pessoas com boas redes de apoio social apresentam maior expectativa de vida quando comparadas às que vivem em isolamento.
“Esses estudos mostram que a longevidade é resultado de um conjunto de fatores. Alimentação saudável, atividade física e acompanhamento médico continuam sendo fundamentais, mas o cuidado com a saúde emocional e a construção de relações significativas também fazem parte dessa equação”, conclui.