Viana cria o primeiro Observatório Municipal de Saúde Ocular do Brasil e vai atender 15 mil estudantes
Projeto inédito une tecnologia, pesquisa científica e atendimento oftalmológico nas escolas para identificar precocemente problemas de visão e fortalecer a inclusão escolar
O município de Viana passou a ocupar posição de destaque no cenário nacional ao implantar, nesta quarta-feira (1º), o primeiro Observatório Municipal de Saúde Ocular do Brasil. A iniciativa, inédita no país, levará avaliações oftalmológicas diretamente às escolas da rede municipal e beneficiará cerca de 15 mil estudantes ao longo dos próximos nove meses.
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O projeto é fruto da parceria entre a Prefeitura de Viana, o Centro de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (CEPEDI), o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e recursos destinados por meio de emenda parlamentar do deputado federal Gilson Daniel.
Mais do que realizar exames de visão, o Observatório vai reunir informações científicas para orientar futuras políticas públicas nas áreas de saúde e educação. A proposta incorpora a metodologia social “Em Um Piscar de Olhos” a uma plataforma de ciência de dados capaz de identificar precocemente alterações visuais que podem comprometer o desempenho escolar e até contribuir para a evasão de estudantes.
Durante o lançamento, o prefeito de Viana, Wanderson Bueno, destacou que o município já desenvolvia ações voltadas à saúde ocular, mas que a parceria fortalece esse trabalho e coloca a cidade como referência nacional.
“Viana servirá de exemplo para todos os outros municípios do país”, afirmou o prefeito.
As avaliações ocorrerão nas próprias unidades de ensino utilizando um equipamento portátil de tecnologia americana, que realiza a medição da refração ocular em poucos segundos, sem contato físico e sem a necessidade de dilatação da pupila com colírios.
O estudante apenas direciona o olhar para o aparelho, que utiliza estímulos visuais para captar sua atenção durante o exame. Segundo os organizadores, a tecnologia apresenta índice de assertividade superior a 90%.
Os alunos que apresentarem alterações serão encaminhados para um Mutirão de Saúde Ocular, onde passarão por consultas com médicos oftalmologistas. Quando houver indicação médica, receberão gratuitamente óculos personalizados.
Um dos diferenciais da iniciativa é o atendimento especializado destinado a estudantes com deficiência. Aproximadamente cinco mil avaliações serão direcionadas a alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), deficiência auditiva, deficiência motora e outras necessidades específicas, garantindo um atendimento humanizado e adaptado.
O coordenador do projeto “Em Um Piscar de Olhos”, Pedro Soares, ressaltou que Viana inaugura uma nova fase da iniciativa, desenvolvida ao longo dos últimos cinco anos.
Segundo ele, além de identificar crianças que necessitam de acompanhamento oftalmológico, o município será o primeiro do país a transformar os resultados das triagens em uma base científica aberta para pesquisadores e gestores públicos.
“Quando a gente olhar para esse projeto no futuro, vai lembrar que ele nasceu em Viana”, destacou.
Durante a cerimônia, profissionais da educação compartilharam relatos pessoais sobre como o diagnóstico da visão mudou suas trajetórias escolares.
O pedagogo Rafael Rangel lembrou que foi uma professora quem percebeu, ainda na infância, sua dificuldade para enxergar o quadro.
“Quando enxergamos o mundo, nós somos pessoas melhores. Aconteceu na minha vida e acontecerá na vida de todas as crianças que precisarem”, afirmou.
A professora Karen Cristina também relatou que descobriu a necessidade do uso de óculos quando tinha 10 anos. Segundo ela, dificuldades para enxergar podem comprometer diretamente o processo de aprendizagem.
“Se você não consegue enxergar direito, você não consegue participar”, comentou.
Quem também testemunhou a importância da iniciativa foi a estudante Esther Malta. Ela contou que só passou a usar óculos após uma professora identificar suas dificuldades em sala de aula.
“Eu acredito que o observatório ajudará muito, principalmente quem não tem condições”, disse.
Além dos atendimentos, o Observatório será estruturado sobre três eixos principais: inovação tecnológica, ciência de dados e fortalecimento das políticas públicas.
A plataforma permitirá organizar informações sobre a saúde ocular dos estudantes, formando uma base científica aberta para pesquisas e oferecendo indicadores que poderão subsidiar novas ações voltadas ao diagnóstico precoce, especialmente entre populações mais vulneráveis.
A implantação do Observatório amplia uma política de inclusão que já vem sendo desenvolvida pelo município.
Em levantamento realizado em 2026, a rede municipal identificou 16 estudantes com deficiência visual ou baixa visão distribuídos em nove unidades escolares. O diagnóstico orienta ações como atendimento educacional especializado, adaptação de materiais, utilização de tecnologias assistivas e acompanhamento individualizado.
Como parte desse trabalho, a Prefeitura firmou parceria com a Fundação Dorina Nowill para adquirir 50 kits LEGO Braille Bricks, material pedagógico que torna o aprendizado do sistema Braille mais interativo e colaborativo.
Desde 2017, Viana também mantém o projeto “Um Olhar Além do Alcance”, voltado ao atendimento especializado de estudantes cegos e com baixa visão, além de investir, desde 2014, na aquisição de livros em Braille para a rede municipal.
Para a secretária municipal de Educação, Angela Cavati, cuidar da saúde visual dos estudantes representa um investimento direto na aprendizagem.
“A visão é a principal porta de entrada para o aprendizado e para o desenvolvimento pleno dos nossos estudantes. Identificar e tratar essas dificuldades dentro do ambiente escolar é uma ação de grande impacto pedagógico e social. Nossa rede está de braços abertos para este projeto, cuidando com muito carinho e atenção especial de cada aluno, principalmente daqueles que necessitam de um atendimento inclusivo e adaptado”, afirmou.
Com a criação do Observatório Municipal de Saúde Ocular, Viana passa a integrar saúde, educação, tecnologia e pesquisa científica em uma iniciativa pioneira, que poderá servir de modelo para outros municípios brasileiros na promoção da inclusão e da aprendizagem.