Deficiência de vitamina D pode estar associada a risco 50% maior de distúrbios do sono
Revisão com mais de 9 mil participantes aponta relação entre baixos níveis do nutriente, pior qualidade do sono, menor duração do descanso e sonolência diurna; especialistas alertam que suplementação não deve ser feita por conta própria
Adultos com deficiência de vitamina D apresentaram risco aproximadamente 50% maior de desenvolver distúrbios do sono em comparação com pessoas que apresentavam níveis adequados do nutriente. A conclusão é de uma revisão sistemática e meta-análise que reuniu nove estudos e mais de 9 mil participantes.
A pesquisa, publicada na revista científica Nutrients, também identificou associação entre níveis reduzidos de vitamina D e pior qualidade do sono, menor duração do descanso e maior sonolência durante o dia. Os resultados, porém, não comprovam que a deficiência da vitamina seja a causa direta dos problemas de sono.
Segundo a pneumologista e especialista em Medicina do Sono Jéssica Polese, a relação entre vitamina D e sono é biologicamente possível. O nutriente participa de diversas funções do organismo, e seus receptores estão presentes em regiões do cérebro relacionadas à regulação do ciclo de sono e vigília.
“Existe uma conexão plausível entre a vitamina D e o sono, mas não podemos transformar associação em causa. Uma pessoa pode ter deficiência e dormir bem, assim como pode apresentar insônia mesmo com níveis adequados. O sono resulta da interação entre fatores biológicos, comportamentais, emocionais e ambientais”, explica a especialista.
A associação entre deficiência de vitamina D e alterações do sono pode ser ainda mais complexa. Pessoas que dormem mal, trabalham no período noturno ou passam grande parte do dia em ambientes fechados, por exemplo, podem ter menor exposição à luz solar e apresentar hábitos que contribuem para níveis reduzidos do nutriente.
Dessa forma, os estudos não permitem determinar, em todos os casos, se a deficiência de vitamina D contribuiu para a alteração do sono ou se as próprias condições relacionadas ao sono inadequado favoreceram a redução dos níveis da vitamina.
A insônia crônica é caracterizada pela dificuldade persistente para iniciar ou manter o sono, pelo despertar antes do horário desejado ou pela sensação de que o descanso não foi reparador. Para ser considerada um transtorno, a condição precisa ocorrer mesmo quando existe oportunidade adequada para dormir e provocar impactos durante o dia, como cansaço, irritabilidade, dificuldade de concentração ou redução do desempenho.
“A insônia não deve ser resumida ao resultado de um exame de sangue. Quando a investigação se concentra apenas em encontrar uma vitamina baixa, existe o risco de deixar passar fatores como ansiedade, depressão, dor crônica, menopausa, uso de medicamentos, hábitos inadequados ou outro distúrbio do sono”, alerta Jéssica.
Outro ponto de atenção é o uso da vitamina D por conta própria. Apesar de ser facilmente encontrada em farmácias, a suplementação indiscriminada pode provocar excesso do nutriente no organismo.
Em níveis elevados, a vitamina D pode aumentar a concentração de cálcio no sangue e provocar sintomas como náuseas e fraqueza, além de alterações renais e outras complicações.
Também não há evidências suficientes para afirmar que a suplementação de vitamina D seja capaz de tratar a insônia. Uma revisão de estudos de intervenção publicada em 2022 identificou possível melhora na qualidade subjetiva do sono, mas considerou insuficientes as evidências relacionadas à duração do sono e a distúrbios específicos.
“Corrigir uma deficiência confirmada é importante para a saúde, mas isso não equivale a tratar a insônia. Mesmo quando o exame mostra níveis baixos, é necessário investigar o sono de forma independente. Tomar uma dose elevada na expectativa de dormir melhor pode não resolver a queixa e ainda expor o paciente a riscos”, afirma a especialista.
A avaliação dos níveis de vitamina D é feita por meio da dosagem sanguínea de 25-hidroxivitamina D. A necessidade do exame deve ser definida de acordo com a história clínica e os fatores de risco de cada pessoa.
Idosos, pessoas com pouca exposição solar, indivíduos com obesidade e pacientes com alterações na absorção intestinal ou doenças renais e hepáticas podem demandar atenção específica.
Já nos casos de dificuldade persistente para dormir, é importante investigar o problema de maneira ampla. Quando os sintomas ocorrem pelo menos três vezes por semana, permanecem por três meses ou mais e começam a interferir na rotina, a recomendação é buscar avaliação especializada.
A investigação pode considerar os horários e hábitos de sono, uso de medicamentos e substâncias, condições emocionais, doenças clínicas e possíveis sinais de outros transtornos, como apneia obstrutiva do sono e síndrome das pernas inquietas.
“O exame pode fazer parte de uma avaliação mais ampla quando houver indicação, mas não deve ser o ponto de partida para todo paciente com sono ruim. Antes de procurar uma solução em um frasco, precisamos entender o que está mantendo aquela pessoa acordada”, conclui Jéssica Polese.
Importante: a associação encontrada nos estudos reforça a necessidade de investigar a saúde do sono e os níveis de vitamina D quando houver indicação clínica, mas não significa que toda pessoa com insônia tenha deficiência do nutriente ou que a suplementação seja capaz de solucionar o problema.