Reservar um tempo para cuidar da própria saúde ainda é um desafio para muitos homens. Entre a rotina de trabalho, compromissos familiares e a falsa ideia de que só é preciso procurar um médico quando há sintomas, muitos deixam de realizar exames preventivos e consultas periódicas. Especialistas alertam que mudar esse comportamento pode ser decisivo para prevenir doenças, garantir tratamentos mais eficazes e viver com mais saúde e longevidade.
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Segundo Thales Mendes, urologista do Hospital Santa Rita, a saúde do homem deve ser acompanhada ao longo de toda a vida, e não apenas após os 50 anos. “A consulta urológica não se resume ao rastreamento do câncer de próstata”, enfatiza. Entre 20 e 39 anos, o foco é a avaliação clínica, orientação sobre saúde sexual, prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), fertilidade, exame físico da região genital, incluindo pênis e testículos.
Thales Mendes explica que, entre 40 e 49 anos, homens sem fatores de risco podem realizar uma avaliação individualizada com o urologista. “Aqueles com histórico familiar de câncer de próstata ou homens negros devem iniciar a conversa sobre rastreamento nessa faixa etária, geralmente aos 45 anos”, pontua.
O especialista acrescenta, ainda, que, a partir dos 50 anos, todos os homens devem discutir com o médico os benefícios e limitações do rastreamento do câncer de próstata. A avaliação inclui o PSA e o exame de toque retal. “Além disso, em todas as idades, a consulta permite identificar problemas como disfunção erétil, sintomas urinários, infertilidade masculina, cálculos urinários, alterações hormonais e outras doenças urológicas”, reforça.
O histórico familiar é um dos principais fatores de risco para câncer de próstata. Homens que possuem parentes de primeiro grau diagnosticados com essa neoplasia, especialmente antes dos 60 anos, apresentam risco significativamente maior de desenvolver a doença. Nesses casos, as diretrizes recomendam antecipar a conversa sobre rastreamento. De forma geral:
homens de risco habitual: a partir dos 50 anos
homens negros ou com familiar de primeiro grau acometido: a partir dos 45 anos
famílias com múltiplos casos ou síndromes hereditárias associadas ao câncer (como mutações em BRCA2): a avaliação pode ser iniciada ainda mais precocemente, de forma individualizada
De acordo com o urologista do Hospital Santa Rita, existe muita confusão sobre PSA e o toque retal. “Há muita desinformação sobre esse tema. O PSA é um exame de sangue que mede uma proteína produzida pela próstata. Valores elevados podem estar relacionados ao câncer, mas também podem ocorrer em situações benignas, como aumento da próstata, inflamações ou infecção urinária. Portanto, PSA alterado não significa necessariamente câncer”, ressalta.
Já o toque retal, segundo o médico, permite avaliar diretamente características da próstata que o PSA não consegue identificar, como endurecimentos, nódulos ou assimetrias suspeitas. “Inclusive, alguns tumores podem apresentar PSA normal e serem detectados pelo exame físico. Por isso, PSA e toque retal são exames complementares, e não concorrentes”, destaca.
Além do câncer de próstata, Thales Mendes diz que outras doenças urológicas podem ser identificadas precocemente durante as consultas de rotina. Entre elas o aumento benigno da próstata (hiperplasia prostática benigna) – que pode causar dificuldade para urinar -, câncer de rim e câncer de bexiga – especialmente em pacientes com fatores de risco, como tabagismo -, câncer de testículo – mais frequente em homens jovens -, infertilidade masculina, disfunção erétil, deficiência de testosterona (hipogonadismo) e cálculos urinários recorrentes.
Outro ponto importante é que a disfunção erétil pode ser um marcador precoce de doenças cardiovasculares. “Em muitos casos, ela aparece anos antes de um infarto ou AVC, funcionando como um alerta para investigação de fatores de risco como diabetes, hipertensão, colesterol elevado e obesidade. Por isso, a consulta com o urologista também representa uma oportunidade para cuidar da saúde global do homem”, afirma.
O urologista explica que alguns sintomas exigem avaliação independentemente da idade. Entre eles estão sangue na urina, dificuldade para urinar ou jato urinário muito fraco, aumento importante da frequência urinária, principalmente à noite, dor ou aumento de volume nos testículos, nódulo testicular, dor persistente na região genital ou pélvica, redução importante da libido associada a outros sintomas hormonais, infertilidade ou dificuldade do casal para engravidar, além de deformidades ou lesões no pênis. “O público masculino precisa entender que o urologista não é o médico apenas da próstata. Ele acompanha a saúde urinária, sexual e reprodutiva do homem durante toda a vida. Quanto mais precoce o diagnóstico, maiores são as chances de tratamentos menos invasivos e melhores resultados”, salienta.
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Além dos cuidados com o urologista, Alex Gomes Rodrigues, cardiologista, coordenador do Serviço de Cardiologia do Hospital São José e professor do Unesc, em Colatina, diz que exames cardiovasculares devem fazer parte do check-up preventivo do homem. Ele deve ser individualizado de acordo com a idade, histórico familiar e presença de fatores de risco.
“Na maioria dos homens adultos, a avaliação começa com uma consulta médica detalhada, exame físico, aferição da pressão arterial e exames laboratoriais, como colesterol e glicemia. Com o avanço da idade ou o aparecimento de fatores de risco, podem ser indicados exames complementares.” O mais importante, de acordo com o médico, é entender que o objetivo do check-up não é fazer o maior número possível de exames, mas identificar precocemente quem apresenta maior risco de desenvolver doenças cardiovasculares e agir antes que elas se manifestem.
A pressão arterial deve ser medida desde a adolescência e acompanhada periodicamente ao longo da vida. Já a avaliação do colesterol e da glicemia costuma ser recomendada a partir dos 20 anos, com intervalos definidos pelo médico conforme o perfil de cada pessoa. “Isso porque hipertensão, colesterol elevado e diabetes podem permanecer por muitos anos sem causar sintomas, enquanto provocam danos progressivos ao coração, cérebro, rins e vasos sanguíneos. Descobrir essas alterações precocemente permite iniciar mudanças no estilo de vida e, quando necessário, tratamento medicamentoso, reduzindo significativamente o risco de infarto e AVC”, esclarece.
Em relação aos exames como eletrocardiograma, ecocardiograma ou teste ergométrico, o professor do Unesc diz que não fazem parte do check-up de rotina para toda a população. O eletrocardiograma pode ser solicitado quando há sintomas como palpitações, dor no peito ou desmaios, ou ainda na avaliação clínica de alguns pacientes com fatores de risco.
“O ecocardiograma é indicado quando existe suspeita de alterações na estrutura ou no funcionamento do coração, como sopros, insuficiência cardíaca ou doenças das válvulas. Já o teste ergométrico costuma ser utilizado para investigar sintomas relacionados ao esforço, avaliar pacientes com maior risco cardiovascular ou antes da prática de atividades físicas intensas em pessoas selecionadas”, pontua. A indicação desses exames, segundo Alex Gomes Rodrigues, deve sempre ser feita após avaliação médica, evitando tanto exames desnecessários quanto a falta de investigação quando ela realmente é indicada.
Fatores como obesidade, sedentarismo, tabagismo, diabetes e hipertensão alteram a frequência e o tipo de exames recomendados. “Esses fatores aumentam significativamente o risco de doenças cardiovasculares. Nesses casos, o acompanhamento costuma ser mais frequente e pode incluir exames adicionais conforme a necessidade.”
De acordo com o cardiologista, um paciente com diabetes, por exemplo, apresenta risco cardiovascular elevado mesmo sem sintomas e frequentemente necessita de uma investigação mais detalhada do que uma pessoa sem fatores de risco. “O mesmo vale para fumantes, hipertensos, pessoas com obesidade e indivíduos com forte histórico familiar de infarto precoce. Além dos exames, essas pessoas precisam de um acompanhamento contínuo para controlar os fatores de risco e prevenir complicações futuras.”
Muitos homens acreditam que só precisam procurar um cardiologista após sentir dor no peito, mas esquecem que doenças cardiovasculares podem evoluir de forma silenciosa. “Essa é uma das maiores armadilhas quando falamos em saúde cardiovascular. Muitas doenças evoluem durante anos sem provocar qualquer sintoma. Hipertensão arterial, colesterol elevado, diabetes, fibrilação atrial em alguns casos e até mesmo o acúmulo de placas nas artérias coronárias podem permanecer silenciosos até que aconteça um evento grave, como infarto, AVC ou insuficiência cardíaca. Por isso, a prevenção é muito mais eficaz do que esperar o aparecimento dos sintomas. Consultas periódicas e controle dos fatores de risco permitem identificar essas alterações precocemente e reduzir de forma importante a chance de complicações”, orienta Alex Gomes Rodrigues.