Está no ar “Ato 1: Transmutação da pele”, primeiro episódio da série de videoarte “O que o tempo escreve na pele”, uma bela obra em três atos na qual corpo, natureza e objetos tornam-se indissociáveis. A obra está disponível no canal do projeto no YouTube (https://www.youtube.com/@
Os outros episódios serão lançados nas próximas quintas-feiras, às 18h. São eles: o “Ato 2: Tempo, pele, ferrugem”, no dia 2 de julho; e o “Ato 3: A profundidade da pele” no dia 9 de julho. Proporcionando maior acessibilidade, os vídeos contarão com audiodescrição e legenda descritiva. O projeto tem realização da FiNA Produtora, com apoio da Secretaria da Cultura (Secult) e Ministério da Cultura, por meio da Lei Aldir Blanc e Funcultura.
A percepção da passagem do tempo é uma questão central em “O que o tempo escreve na pele”, colocando a vida humana e a natureza em paralelo e em fusão a partir das imagens e sons. “É muito triste ver uma mulher sofrer e se rejeitar por achar que o valor dela está na beleza da pele lisa”, lamenta. Por isso, Regina usa sua própria pele e seu corpo para mostrar a beleza impressa pelo passar dos anos. “Eu não envelheci por dentro, o que sentia quando criança e adolescente eu sinto hoje, não muda, mas fica mais requintado, mais saboroso”, comenta sobre o passar da vida, a aceitação do corpo e consciência sobre o tempo e as experiências acumuladas.
O trabalho nasce do lar da artista e do seio de sua família. Às fotos e vídeos registradas pela própria Regina se somam as de Fernanda Batalha, filha da artista, além de imagens de Fernanda Nali, diretora artística e executiva do projeto. A trilha sonora, instrumental e autoral, é assinada pelo outro filho de Regina Serapião, o músico e professor Rodrigo Batalha.
“Eu não me vejo como uma artista. O que eu tenho é uma forma apaixonada de olhar, de ver beleza onde ela passaria despercebida”, comenta Regina Serapião. Ela revela que desde criança tinha uma grande curiosidade em olhar e costuma sempre se abaixar ou se aproximar para ver as coisas de bem perto. Curiosamente, anos depois, ela descobriria que possui um grau muito forte de hipermetropia. Então, por pouco enxergar, passou a olhar tudo muito de perto. “Foi esse convite para ir mais perto que me despertou essas descobertas sobre coisas que eu talvez pisasse em cima e não desse importância”.
A partir deste olhar de encantamento com seu entorno, a artista faz de sua varanda de frente para o mar um ateliê, onde reúne e separa materiais encontrados no caminhar pela praia ou no próprio quintal: conchas, restos de construções, objetos enferrujados, separados de acordo com o material e dispostos de modo que possam ser manejados para criarem novas percepções, que pretende que no futuro deêm origem a uma exposição para acesso público.
Uma longa trajetória
Em sua jornada de vida, ingressou tarde na escola, casou-se cedo, mudou-se para Niterói (RJ), teve filhos, divorciou-se, retornou à Praia da Baleia, onde nasceu – numa época em que o número de moradores se contava nos dedos. Chegou a ter um estúdio de fotografia, mas foi só aos 59 anos que ingressou no curso de Artes Plásticas na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), onde formou-se em 2022 com um TCC de que traz pela primeira vez o nome “O que o tempo escreve na pele”, dando início à sistematização das reflexões e performances que desencadeiam na série de vídeo-artes que está sendo lançada.
Foi depois dos 60 anos de idade e dessa longa trajetória que a artista foi selecionada na categoria Meu Primeiro Edital, lançado pela Secult para proporcionar acesso às políticas culturais por artistas e trabalhadores da cultura que nunca concorreram ou não foram selecionados anteriormente, como forma de democratizar os recursos disponibilizados.
“Gostaria imensamente que minha mensagem chegasse às pessoas. A mensagem da minha arte, da minha fala, do meu corpo”, relata Regina Serapião, que pondera que enxerga seu processo criativo como muito orgânico, sem nutrir grandes expectativas, mas tendo abertura para receber críticas e sugestões. “A pele é folha. Sobre ela, a vida inteira é escrita”, diz a artista, que pretende seguir escrevendo poeticamente sua história a partir de seu corpo.