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Museu Vale abre exposição gratuita sobre memórias, ancestralidade, tecnologia e futuro na Ufes

O que acontece quando obras com linguagens, materialidades e temporalidades distintas passam a ocupar o mesmo espaço? A exposição Passagem, realizada pelo Museu Vale em parceria com a Galeria de Arte Espaço Universitário da Universidade Federal do Espírito Santo (Gaeu/Ufes), reúne diferentes linguagens e trajetórias da arte contemporânea capixaba em uma montagem que valoriza o encontro, o contraste e as possibilidades de leitura criadas pela proximidade entre os trabalhos. A abertura será realizada no dia 30 de setembro, às 19h, na Gaeu, no campus de Goiabeiras da Ufes, em Vitória. A visitação gratuita acontece de 1º a 30 de outubro de 2026, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h.

Com curadoria de Isabella Baltazar, doutora em Literatura e idealizadora da Festa Literária Internacional Capixaba (Flinc), a mostra reúne artistas selecionados pelo Edital Convocatória de Programação Museu Vale 2026 e convidados da cena artística do Espírito Santo. Participam Ashanti-Makida, Barbara Carnielli, Elvys Chaves & Carlo Schiavini, Gabriel Bibs, Júlia Ramalho, Julia Uliana e Izabela Pellegrini, Marcelo Venzon, e Yasmim Lima. Instalações, fotografia, vídeos, desenhos, esculturas e performances compartilham a galeria sem a intenção de construir um percurso cronológico ou uma narrativa única.

Para a diretora do Museu Vale, Claudia Afonso, a exposição fortalece a produção artística capixaba ao aproximar diferentes pesquisas e modos de criação. “Passagem cria um espaço de encontro entre artistas, obras e públicos, valorizando a diversidade de linguagens e perspectivas presentes na produção contemporânea do Espírito Santo. Ao reunir projetos selecionados pelo Edital Convocatória e artistas convidados, a mostra ajuda a fortalecer a circulação e a ampliação do acesso à arte produzida no estado”, afirma.

Os trabalhos expostos são atravessados por questões como corpo, memória, ancestralidade, tecnologia, natureza e futuro, propondo um campo aberto à pluralidade de pensamentos, sem exigir que as diferentes perspectivas sejam reduzidas a uma única interpretação.

Segundo a curadora Isabella Baltazar, Passagem parte da ideia de que fragmentos podem se tocar sem se fundir, produzindo sentido pelo atrito, e não pela conciliação. “O gesto curatorial, embora reúna os trabalhos, não intervém para forçar um encontro fluente. Os fragmentos são recolhidos para provocar uma travessia, um convite à passagem do instante entre uma obra e outra”, afirma.

A iniciativa é do Museu Vale e do Instituto Cultural Vale, com patrocínio da Vale, e realização do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet – Lei Federal de Incentivo à Cultura.

Diferentes formas de observar e ocupar o espaço
Em Oníricas, Barbara Carnielli aproxima plantas, bambu, metal e tubos luminosos em uma instalação que coloca em convivência a matéria viva e a luz artificial. A vegetação ocupa o centro da composição e adquire uma aparência instável, quase espectral, criando uma paisagem entre vigília, memória e sonho. A obra propõe um encontro entre aquilo que cresce, se transforma, permanece e se consome.

A arquitetura e a memória urbana aparecem na série Esquadrias, de Gabriel Bibs. Produzidos pela sobreposição de camadas de papel reciclado, cortadas e coladas manualmente, os trabalhos representam janelas, portas e sacadas presentes em construções do Espírito Santo. À distância, as imagens podem ser confundidas com fotografias. De perto, revelam as camadas, os recortes e o processo artesanal que estrutura cada composição.

Já Marcelo Venzon apresenta trabalhos que investigam a ideia de uma arquitetura não sólida. Em Superfície-membrana, Exercício para dobrar o espaço expositivo, ou me leve para passear e Exercício para dobrar este espaço, o artista manipula formas, arestas, aberturas e volumes da Gaeu, propondo outras maneiras de perceber os limites e as estruturas do espaço expositivo.

O espaço também é reorganizado em Introconexão, de Elvys Chaves & Carlo Schiavini. Na escultura, tubos de alumínio anodizado percorrem a parede em uma sequência de retas e curvas. A precisão do desenho industrial encontra mudanças de direção, pontos de tensão e ajustes entre as partes. Sob a incidência da luz, o metal projeta sombras que se alteram conforme o deslocamento do visitante, fazendo com que a obra se estenda para além de sua estrutura física.

Corpo, ancestralidade e transformação
Nas obras de Ashanti-Makida, máscaras de inspiração yorubá são compreendidas como entidades vivas e carregadas de sentidos ligados à transformação, à natureza e à ancestralidade. Os trabalhos Ewruku, Òrùn, Òkun, Irúgbin e Fàdákà evocam imagens como a metamorfose da borboleta, a força do sol, o movimento das águas, a germinação e o brilho da prata.

Em Assentamento de Benzedeira, Yasmim Lima, também conhecida como Véia do Patuá, aproxima arte, cuidado e saberes tradicionais. A instalação reúne areia, folhas de aroeira, galhos de murta, espadas-de-são-jorge, vasos de barro, água de cheiro e um alguidar destinado à defumação. Ativada por meio de gestos, rezas, palavras e práticas de benzeção, a obra cria um espaço no qual conhecimentos transmitidos entre gerações podem se manifestar e ser compartilhados.

O corpo também ocupa o centro de desenho/primeira pessoa, de Júlia Ramalho. Realizado em escala ampliada, o trabalho exige o deslocamento físico da artista durante sua produção e transforma o gesto na medida do traço. As figuras criadas pela linha contínua não representam corpos observados, mas imagens atravessadas por memória, percepção e experiências corporais. O desenho aparece, ao mesmo tempo, como ação, linguagem e vestígio dos movimentos que o produziram.

Cidade e futuros possíveis
Na videoinstalação Cada ano será um pouco mais quente, Julia Uliana e Izabela Pellegrini investigam os impactos das mudanças climáticas sobre Vitória. A obra parte de simulações computacionais relacionadas aos efeitos de soluções baseadas na natureza sobre as temperaturas das cidades brasileiras, considerando cenários projetados para 2050. Esses dados são deslocados para o campo artístico e transformados em uma paisagem audiovisual que se modifica diante da presença do público.

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