Espírito Santo cria força-tarefa para enfrentar o El Niño 2026/2027 e anuncia plano com mais de R$ 2 bilhões em ações de prevenção
Governo institui Centro Integrado de Comando e Controle para monitorar o fenômeno, reforça investimentos em infraestrutura, segurança hídrica e agricultura e promete acompanhamento semanal da situação climática
O Governo do Espírito Santo apresentou, nesta quarta-feira (8), o Plano Estadual de Preparação, Prevenção e Resposta ao fenômeno El Niño 2026/2027, considerado o mais amplo planejamento já elaborado pelo Estado para enfrentar um evento climático extremo. A estratégia reúne dezenas de ações integradas voltadas à proteção da população, da agricultura, do abastecimento de água e da infraestrutura urbana, diante das projeções que indicam um período de estiagem prolongada, temperaturas acima da média, aumento do risco de incêndios florestais e ocorrência de chuvas irregulares.
Durante coletiva realizada na Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil (Cepdec/ES), em Vitória, o governador Ricardo Ferraço assinou o decreto que cria o Centro Integrado de Comando e Controle do El Niño (CCC-El Niño), estrutura responsável por coordenar as ações de monitoramento, prevenção e resposta envolvendo praticamente todo o Governo do Estado.
Participam da força-tarefa a Defesa Civil Estadual, Corpo de Bombeiros Militar, Secretaria da Agricultura (Seag), Secretaria do Meio Ambiente (Seama), Secretaria de Economia e Planejamento (SEP), Secretaria de Saneamento, Habitação e Desenvolvimento Urbano (Sedurb), Agência Estadual de Recursos Hídricos (AGERH), Cesan, Iema, Idaf, NOTAer e outros órgãos estratégicos.
“Todas as evidências dos nossos centros de monitoramento e também dos institutos nacionais indicam que teremos um El Niño muito presente e de grande intensidade entre 2026 e 2027. Diferentemente do passado, hoje temos uma curva de aprendizado e uma estrutura muito mais preparada para enfrentar esse cenário”, afirmou o governador Ricardo Ferraço.
Segundo ele, o Estado decidiu agir antes que os impactos sejam sentidos pela população.
“Não estamos esperando o fenômeno chegar. Estamos indo ao encontro dele com planejamento, integração e organização. O decreto cria um centro de comando que ficará subordinado diretamente ao gabinete do governador. Eu mesmo acompanharei semanalmente todas as ações desenvolvidas.”
As projeções apresentadas durante a coletiva apontam que o principal impacto do El Niño no Espírito Santo deverá ser uma estiagem mais intensa e duradoura, especialmente nas regiões Norte e Noroeste, embora todo o território capixaba possa sofrer consequências.
“O nosso maior desafio será uma estiagem muito prolongada. Isso traz impactos econômicos, sociais e ambientais importantes. Mas fizemos muitos investimentos em reservação de água e infraestrutura ao longo dos últimos anos, o que nos permite afirmar que o Espírito Santo chega preparado para enfrentar esse fenômeno”, destacou Ferraço.
O governador ressaltou que nenhuma região está totalmente imune aos efeitos das mudanças climáticas.
“Quando se trata de um fenômeno natural, ninguém pode dizer que está 100% preparado. Sempre podem surgir situações inesperadas. Mas estamos organizados, atentos e trabalhando com base na ciência para reduzir ao máximo os impactos.”
Responsável pela apresentação técnica do plano, o coordenador estadual da Defesa Civil, coronel Alexandre Ferrari, explicou que o El Niño já está instalado no Oceano Pacífico e deverá permanecer ativo durante todo o verão, período considerado essencial para a recarga hídrica dos reservatórios.
“O que mais preocupa não é apenas a intensidade do El Niño, mas a sua duração. Os modelos climáticos indicam que ele permanecerá atuando justamente entre novembro e março, quando normalmente ocorre a maior reposição das reservas de água.”
Segundo Ferrari, historicamente o fenômeno provoca redução das chuvas, aumento das temperaturas e favorece a ocorrência de incêndios florestais.
“O cenário mais provável é de estiagem, escassez hídrica, ondas de calor e crescimento significativo dos incêndios em vegetação. Mas isso não significa ausência total de chuvas. Podemos ter eventos concentrados, com grande volume em poucos dias, enquanto outras regiões permanecem em situação de seca.”
O coronel destacou que o Espírito Santo chega a esse novo desafio com uma estrutura muito mais robusta do que em eventos anteriores.
“Hoje o Estado consegue dar uma resposta muito mais forte do que deu em desastres recentes. Foram cerca de R$ 2 bilhões investidos em prevenção, equipamentos, infraestrutura e fortalecimento da Defesa Civil. Estamos preparados tanto quanto é possível estar diante de um desastre natural.”
O secretário de Estado da Agricultura, Enio Bergoli, afirmou que a agricultura capixaba apresenta uma vantagem importante em relação a outros estados brasileiros: aproximadamente metade das propriedades rurais utiliza irrigação, o maior índice do país.
“No Norte e Noroeste, onde o El Niño deverá ser mais intenso, praticamente 100% das lavouras de café conilon, mamão e pimenta-do-reino são irrigadas. Isso aumenta bastante a resiliência da nossa produção.”
Apesar disso, Bergoli alertou que o prolongamento da estiagem preocupa.
“A água existente hoje nas barragens é suficiente para atravessar o período seco tradicional. A nossa preocupação é se o fenômeno impedir a recarga das barragens entre outubro e março.”
Outro fator que preocupa é o aumento da temperatura.
“O calor excessivo pode provocar abortamento das flores do café, reduzir o metabolismo das plantas, diminuir a produtividade e comprometer a qualidade dos grãos. Ainda é cedo para estimar prejuízos, mas faremos acompanhamento permanente.”
O secretário também anunciou apoio financeiro aos produtores.
“Já alinhamos com as instituições financeiras a possibilidade de prorrogação das parcelas de crédito rural. Além disso, o Estado lançará novas linhas de financiamento voltadas à irrigação, construção de barragens e adaptação às mudanças climáticas.”
O secretário de Economia e Planejamento, Álvaro Duboc, destacou que a saúde financeira do Espírito Santo permitirá ampliar investimentos caso a situação climática se agrave.
“O Espírito Santo é um Estado organizado do ponto de vista fiscal. Assim como respondemos rapidamente aos eventos de 2020 e 2024, temos condições de reforçar equipes, equipamentos e recursos sempre que necessário.”
Mudanças climáticas exigem políticas permanentes
O secretário de Estado do Meio Ambiente, Vitor Chagas, lembrou que o Espírito Santo já trabalha há anos na adaptação às mudanças climáticas.
“O Estado foi um dos primeiros do Brasil a elaborar um plano específico para enfrentamento das mudanças climáticas. Todas as políticas públicas apresentadas hoje são baseadas em evidências científicas. Quando o governador assume diretamente essa coordenação, transforma essa estratégia em uma verdadeira política de Estado.”
O plano reúne investimentos já executados e novas ações para reduzir os impactos do El Niño.
Na agricultura, foram entregues 46 caminhões-pipa para 34 municípios, com investimento superior a R$ 21 milhões. Outros R$ 158 milhões foram destinados à entrega de 444 máquinas e equipamentos agrícolas. Também foram construídas 33 barragens de uso múltiplo, implantados programas de formação de estoques de silagem e criadas linhas de crédito para pequenas barragens e irrigação.
Na infraestrutura urbana, o Estado contabiliza cerca de R$ 780 milhões em obras de macrodrenagem, R$ 111 milhões em contenção de encostas, R$ 721 milhões em projetos financiados pelo Fundo Cidades e mais R$ 52 milhões em ações executadas pela Defesa Civil.
Na área ambiental, o Governo investiu aproximadamente R$ 100 milhões em Pagamentos por Serviços Ambientais, beneficiando mais de 5,4 mil propriedades rurais, além de ampliar o monitoramento por imagens de satélite para identificar focos de incêndio e desmatamento ilegal.
A Cesan reforçou sua estrutura para perfuração de poços, contratação de carros-pipa e ampliação das captações de água, enquanto a AGERH opera 32 estações de monitoramento hidrológico em tempo real.
Já o Corpo de Bombeiros ampliou de 15 para 23 unidades operacionais, incorporou mais de 600 militares, adquiriu novas viaturas e equipamentos especializados e contará com equipes exclusivas para o combate aos incêndios florestais. O Iema reforçará a atuação com brigadistas temporários, e o NOTAer disponibilizará aeronaves para monitoramento e apoio às operações.
O Centro Integrado de Comando e Controle funcionará em regime permanente, reunindo diariamente informações meteorológicas, níveis dos rios, disponibilidade hídrica, focos de incêndio e situação das lavouras.
As equipes técnicas produzirão boletins semanais, que serão avaliados pelo governador e servirão de base para decisões como reforço das equipes, campanhas de conscientização, restrições ao uso da água e outras medidas necessárias conforme a evolução do fenômeno.
Ao encerrar a coletiva, Ricardo Ferraço reafirmou que o maior compromisso do governo é agir de forma antecipada.
“Quem planeja tem futuro. Quem não planeja apenas reage aos problemas. O Espírito Santo escolheu o caminho da prevenção. Estamos mobilizando todo o governo para reduzir os impactos do El Niño, proteger a população, apoiar nossos produtores rurais e preservar a economia capixaba.”