Nova geração de remédios contra a insônia chega ao Brasil e reacende debate sobre uso consciente
Uma nova alternativa para o tratamento da insônia está prestes a chegar ao Brasil e promete transformar a forma como o distúrbio é tratado. Trata-se do lemborexante, que será comercializado com o nome de Dayvigo, desenvolvido pela farmacêutica japonesa Eisai e aprovado recentemente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Diferente dos medicamentos tradicionais, que atuam induzindo o sono, o novo fármaco age bloqueando os mecanismos cerebrais responsáveis por manter o estado de vigília. A proposta é atuar diretamente na raiz do problema — o excesso de alerta do cérebro —, favorecendo um adormecer mais natural.
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A médica especialista em Medicina do Sono, Jessica Polese, explica que essa mudança de abordagem representa um avanço importante no tratamento. “Enquanto os outros já usados no Brasil provocam uma ação de sono, o lemborexante bloqueia a engrenagem que mantém a pessoa acordada. Além disso, espera-se que ele gere menos quadros de dependência. Até o momento, o que sabemos do lemborexante é que esse risco é baixo, então é uma classe bem promissora”, afirma.
Estudos internacionais reforçam o potencial da medicação. Uma análise conduzida por pesquisadores da Universidade de Oxford e publicada na revista científica The Lancet apontou o lemborexante como uma das opções com melhor perfil de eficácia, aceitabilidade e tolerabilidade entre dezenas de tratamentos avaliados.
A especialista destaca ainda que o diferencial do medicamento está na forma como ele atua no organismo. “Ao contrário de outras classes, que agem estimulando o sono, o lemborexante bloqueia o que nos mantém acordado. Sendo assim, ele impede a ação do combustível que mantém o interruptor do cérebro na posição ‘acordado’”, explica Jessica Polese.
A indicação aprovada no Brasil é para adultos. A dose inicial recomendada é de 5 mg por noite, podendo chegar a 10 mg conforme a resposta clínica e a tolerabilidade do paciente. O uso deve ser feito poucos minutos antes de dormir, garantindo um intervalo mínimo de sete horas antes do despertar.
Apesar do avanço, especialistas alertam que o tratamento da insônia não deve começar com medicamentos. Segundo Jessica Polese, mudanças de hábitos continuam sendo fundamentais. “O tratamento inicial não envolve remédios, mas sim uma orientação para mudanças de hábitos como prática de atividades físicas, redução de estímulos como telas e cafeína no fim do dia, evitar álcool e tabagismo e ajustes no ambiente do quarto, rotinas conhecidas como higiene do sono”, orienta.
Ela também reforça a importância de abordagens terapêuticas não medicamentosas. “Também utilizamos a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I), considerada padrão-ouro pelas diretrizes internacionais. Ela combina técnicas que atuam nos três pilares da insônia: pensamentos disfuncionais, comportamentos inadequados e desregulação fisiológica”, destaca.
No Brasil, a insônia é uma queixa frequente. Estimativas apontam que cerca de dois terços da população enfrentam algum tipo de dificuldade para dormir, enquanto milhões já recorrem ao uso de medicamentos. Ainda assim, o uso deve ser criterioso.
“Indicamos o tratamento medicamentoso, geralmente, para pacientes cujo tempo de sono total é inferior a 6 horas, que apresentam prejuízos na funcionalidade cotidiana e que não respondem à terapia convencional. Nestes casos, seguimos a forma de utilização com um princípio claro: a menor dose eficaz, pelo menor tempo necessário, sempre com monitoramento médico. O ideal é que sejam usados de modo pontual ou em períodos curtos, evitando o uso crônico”, conclui a médica.
O lançamento do Dayvigo no Brasil ainda depende da definição de preço pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). Nos Estados Unidos, onde o medicamento foi aprovado em 2019, o custo médio é elevado, o que pode influenciar o acesso no mercado brasileiro.
Enquanto isso, a chegada da nova medicação amplia as opções de tratamento, mas reforça a necessidade de um olhar mais amplo sobre a saúde do sono que vai além de soluções imediatas e envolve hábitos, rotina e acompanhamento especializado.