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Livro sobre escuta psicanalítica no autismo é lançado em Vitória

Associação em Vitória lança livro que propõe escuta psicanalítica no tratamento do autismo

A cidade de Vitória será palco, nesta quarta-feira (9), do lançamento do livro “Escutem os Autistas!”, do psicanalista francês Jean-Claude Maleval. A obra propõe uma reflexão sobre o papel da escuta psicanalítica no cuidado de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e marca o 10º título publicado no Brasil pela Associação PIPA (e rabiola).

O evento será realizado às 19h, na Clínica Via Régia, reunindo profissionais da saúde, estudantes e interessados no tema. A publicação integra a coleção “PIPA Traduz” e será distribuída pela Editora Cândida.

Com atuação em diferentes estados, a Associação PIPA (e rabiola) reúne cerca de 40 pesquisadores e estudantes dedicados ao estudo do autismo, orientados pela Associação Mundial de Psicanálise, com base na perspectiva lacaniana.

Na obra, Maleval se posiciona diante do que considera um movimento internacional de deslegitimação da psicanálise no tratamento do autismo. Na França, decisões da Haute Autorité de Santé desaconselharam o uso da abordagem psicanalítica, o que gerou reações de entidades como a Federação Latino-Americana de Psicanálise de Orientação Lacaniana.

Para o autor, a escuta do sujeito autista deve ocupar um lugar central no cuidado. Ele sustenta que a clínica psicanalítica contribui ao valorizar a singularidade de cada indivíduo, inclusive daqueles que não utilizam a linguagem verbal como principal forma de expressão.

O livro também apresenta críticas à Análise do Comportamento Aplicada (ABA), abordagem amplamente difundida no tratamento do autismo. Segundo Maleval, o método pode levar à padronização de comportamentos, deixando em segundo plano aspectos subjetivos das crianças.

O autor questiona ainda a intensidade das intervenções e alerta para o risco de uma adaptação baseada na obediência, em detrimento da autonomia do indivíduo.

O debate ganha relevância no contexto brasileiro ao abordar a nova diretriz do Ministério da Saúde do Brasil para o cuidado de pessoas com TEA, publicada em 2025, que não inclui a psicanálise entre as abordagens recomendadas.

No anexo da obra, as psicanalistas Renata Wirthmann, Inês Catão e Bartyra Ribeiro de Castro apontam possíveis impactos dessa diretriz, como o aumento da medicalização precoce e a sobrecarga dos serviços de saúde.

Segundo elas, a ampliação de triagens e diagnósticos pode gerar distorções no acesso ao cuidado, prejudicando casos que demandam acompanhamento contínuo e individualizado.

Responsável pela tradução da obra, Bartyra destaca que o livro busca ampliar o diálogo sobre o tratamento do autismo, sem impor um modelo único. A proposta, segundo ela, é oferecer subsídios tanto para a prática clínica quanto para a orientação de familiares e a formação de profissionais.

Além da atuação editorial, a Associação PIPA (e rabiola) promove cursos, grupos de estudo e iniciativas voltadas à inclusão e ao acolhimento de pessoas autistas e seus familiares, contribuindo para o fortalecimento do debate público e para a qualificação de profissionais das áreas de saúde e educação.

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