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Espírito Santo sente impacto de nova tarifa dos EUA

Sobretaxa de 25% atinge 480 produtos exportados pelo Estado e amplia preocupação entre empresas capixabas; setor de rochas naturais concentra a maior parcela dos negócios afetados

O Espírito Santo está entre os estados brasileiros que podem sentir de forma mais significativa os efeitos da nova política tarifária dos Estados Unidos. A confirmação, na última quarta-feira (15), de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros comercializados com o mercado norte-americano trouxe novas incertezas para o comércio exterior capixaba e acendeu um alerta entre empresas e setores produtivos.

A nova sobretaxa está prevista para entrar em vigor em 22 de julho de 2026 e alcança uma relação de 480 produtos capixabas, segundo levantamento elaborado pelo Observatório FINDES com base em dados do Comex Stat e nas exceções divulgadas pelo governo norte-americano. Em 2025, esses produtos representaram aproximadamente US$ 230,1 milhões em exportações, o equivalente a 2,3% de toda a pauta exportadora do Espírito Santo e a 8,1% das vendas do Estado para os Estados Unidos.

O impacto, no entanto, não é distribuído de maneira uniforme entre os segmentos. A indústria de rochas naturais aparece como a mais exposta à nova tarifa. Entre os produtos relacionados ao setor estão diferentes tipos de granito, mármore, travertino, alabastro e outras pedras de cantaria e construção.

Somente as exportações de outros granitos trabalhados e suas obras alcançaram cerca de US$ 160,7 milhões em 2025, de acordo com a planilha do Observatório FINDES. O valor corresponde a aproximadamente 69,6% das exportações capixabas para os Estados Unidos sujeitas à nova tarifa.

Também estão entre os produtos de maior valor exportado o mármore, travertino e alabastro trabalhados, com aproximadamente US$ 34,3 milhões, além de outras pedras de cantaria, com cerca de US$ 9,9 milhões. O levantamento inclui ainda granito talhado ou serrado, quartzitos e diferentes tipos de obras e produtos derivados de pedra natural.

O setor de alimentos e do agronegócio também aparece na lista. Entre os produtos potencialmente afetados estão ovos frescos de aves, que movimentaram aproximadamente US$ 8,2 milhões em exportações para os Estados Unidos em 2025, além de nozes, inhames, algas destinadas à alimentação humana, chocolates e preparações alimentícias contendo cacau.

A relação inclui ainda uma variedade de outros produtos, como pastas carbonadas para eletrodos, preparações capilares, produtos de cimento e concreto, pedras preciosas e semipreciosas trabalhadas, instrumentos musicais, móveis de madeira, calçados, produtos alimentícios, cosméticos e outros itens industrializados.

Apesar da abrangência da medida, produtos importantes para a pauta exportadora capixaba ficaram fora da nova sobretaxa. É o caso de segmentos como minério de ferro, celulose e café, que estão entre os principais produtos comercializados pelo Espírito Santo com o mercado norte-americano.

Para o presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo (FINDES), Paulo Baraona, a situação exige atenção porque os Estados Unidos ocupam uma posição estratégica nas relações comerciais do Estado.

“A sobretaxa agrava um cenário que já vinha pressionando as exportações nacionais e amplia a insegurança para empresas brasileiras e norte-americanas. Em 2025, os Estados Unidos foram destino de 27% das exportações capixabas, o equivalente a US$ 2,8 bilhões, consolidando-se como o principal parceiro comercial do Espírito Santo”, explica Baraona.

Os números mais recentes reforçam a relevância do mercado norte-americano para a economia capixaba. No primeiro semestre de 2026, o Espírito Santo exportou US$ 1,4 bilhão para os Estados Unidos, o equivalente a 27,5% de todas as exportações realizadas pelo Estado no período. Apesar disso, houve uma queda de 17,2% nas exportações para o país em comparação com o primeiro semestre de 2025.

Diante desse cenário, a FINDES e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmam atuar pelo fortalecimento das relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, ao mesmo tempo em que defendem a ampliação da diversificação dos mercados de destino dos produtos brasileiros.

“Hoje, o Estado mantém relações comerciais com mais de 170 mercados. Avançar nessa diversificação é uma agenda estratégica para reduzir riscos, ampliar oportunidades e proteger a competitividade da indústria capixaba diante de possíveis impactos futuros no comércio internacional”, afirma Paulo Baraona.

A nova tarifa é mais um capítulo de uma sequência de medidas adotadas pelo governo norte-americano desde 2025. O cenário começou a se desenhar em abril do ano passado, quando os Estados Unidos iniciaram um ciclo de tarifas recíprocas e aplicaram uma cobrança adicional de 10% sobre produtos brasileiros.

Em junho de 2025, as tarifas sobre importações de aço, alumínio e derivados subiram de 25% para 50%. No mês seguinte, em julho, o governo norte-americano anunciou uma tarifa adicional de 40% sobre diversos produtos brasileiros, que, somada à tarifa recíproca de 10%, elevou a tributação de parte da pauta para 50%.

Em novembro de 2025, determinados produtos agrícolas brasileiros foram retirados da lista submetida à tarifa adicional de 40%. Já em fevereiro de 2026, após decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, foram encerradas as medidas tarifárias fundamentadas na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), incluindo a tarifa recíproca de 10% e a sobretaxa de 40% aplicada ao Brasil.

No mesmo dia, o governo norte-americano anunciou uma sobretaxa global temporária de 10% sobre as importações, com vigência prevista de 150 dias e fundamentada na Seção 122 da Lei de Comércio de 1974.

Em março de 2026, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) iniciou investigações contra 60 economias, incluindo o Brasil, relacionadas a mecanismos para impedir a importação de produtos associados ao trabalho forçado.

A investigação específica envolvendo o Brasil avançou nos meses seguintes. Em 1º de junho, o USTR propôs uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, acompanhada de uma lista de exceções. Em julho, após audiência pública realizada nos dias 6 e 7, com participação de representantes dos setores privados brasileiro e norte-americano, os Estados Unidos confirmaram a aplicação da nova tarifa.

Com a entrada em vigor prevista para 22 de julho, empresas e setores exportadores do Espírito Santo passam a acompanhar os próximos desdobramentos da política comercial norte-americana. Para o setor produtivo capixaba, a medida reforça a necessidade de buscar novos mercados e reduzir a dependência de poucos destinos internacionais.

Lista de produtos capixabas que serão taxados

Linha do tempo da taxação dos EUA sobre produtos brasileiros

2 de abril de 2025 – Donald Trump inicia o ciclo de tarifas recíprocas e inclui o Brasil na ofensiva comercial, com tarifa adicional de 10% sobre produtos brasileiros.

3 de junho de 2025 – Os Estados Unidos elevam de 25% para 50% as tarifas sobre importações de aço, alumínio e derivados, com base na Seção 232. A nova alíquota entra em vigor no dia seguinte.

30 de julho de 2025 – É anunciada uma tarifa adicional de 40% sobre diversos produtos brasileiros. Somada à tarifa recíproca de 10%, a tributação de parte da pauta chega a 50%. Uma extensa lista de exceções também é publicada.

20 de novembro de 2025 – Os Estados Unidos retiram determinados produtos agrícolas brasileiros da lista sujeita à tarifa adicional de 40%, após avanços iniciais nas negociações bilaterais.

20 de fevereiro de 2026 – A Suprema Corte dos Estados Unidos decide que a IEEPA não autoriza o presidente a impor tarifas. As medidas tarifárias baseadas nessa legislação são encerradas.

20 de fevereiro de 2026 – No mesmo dia, Trump anuncia uma sobretaxa global temporária de 10% sobre as importações norte-americanas, com fundamento na Seção 122 da Lei de Comércio de 1974.

12 de março de 2026 – O USTR inicia investigações contra 60 economias, incluindo o Brasil, relacionadas a mecanismos para impedir a importação de produtos associados ao trabalho forçado.

1º de junho de 2026 – O USTR conclui a investigação específica da Seção 301 sobre práticas comerciais brasileiras e propõe uma tarifa adicional de 25%, com exceções.

2 de junho de 2026 – Em processo paralelo relacionado ao trabalho forçado, o USTR propõe tarifas adicionais de 10% ou 12,5%, conforme a situação de cada economia. Para o grupo que inclui o Brasil, a alíquota proposta é de 12,5%.

22 de junho de 2026 – Termina o prazo para empresas e entidades solicitarem participação na audiência pública sobre a investigação contra o Brasil.

1º de julho de 2026 – Encerra-se o prazo para manifestações escritas ao USTR sobre a proposta de tarifa adicional de 25%.

6 e 7 de julho de 2026 – O USTR realiza audiência pública com representantes dos setores privados brasileiro e norte-americano. Ao todo, 77 participantes prestam depoimentos.

15 de julho de 2026 – Os Estados Unidos confirmam a aplicação da tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, mantendo exceções para determinados itens.

22 de julho de 2026 – Está prevista a entrada em vigor da nova tarifa.

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