Desde os sete anos de idade, a vida da supervisora de higienização (PCD- por conta da visão) Ângela Conceição, de 54 anos, foi marcada por limitações profundas causadas por uma miopia. Diagnosticada ainda na infância, ela viu o grau aumentar progressivamente ao longo dos anos, até atingir um nível considerado raro na oftalmologia: 30 graus.
“Minha rotina sempre foi muito difícil. Eu não enxergava. Tive que parar de estudar porque não conseguia ver o quadro. Sempre tive vergonha”, relembra.
Criada em uma família humilde e sem acesso a acompanhamento oftalmológico adequado, Ângela cresceu enfrentando dificuldades que impactaram diretamente sua autonomia e seus sonhos. Nunca conseguiu tirar carteira de motorista, evitava sair sozinha e, muitas vezes, sequer reconhecia pessoas ao seu redor. “Eu usava um óculos muito grosso, casei aos 16 anos e aos 18, meu marido conseguiu comprar uma lente de contato para mim, porque eu não conseguia mais usar o óculos, me cortava, pesava muito. Eu moro há mais de 20 anos no mesmo lugar e não conhecia meus vizinhos pelo rosto, só pela voz”, conta.
Crise emocional agravou o quadro
Em 2024, um momento delicado intensificou ainda mais a perda visual. Após enfrentar uma depressão, motivada pela distância dos filhos – que passaram a viver no exterior – Ângela percebeu uma piora significativa na visão.
“Eu só chorava. E fui deixando de enxergar ainda mais. Quando fui ao médico, levei um susto: meu nível de miopia tinha ido para o grau 30”, conta.
Uma possibilidade que parecia impossível
Durante toda a vida, Ângela ouviu que seu caso não tinha solução cirúrgica. Mas, em 2025, veio uma reviravolta: ela descobriu que poderia, sim, realizar um procedimento. Após uma tentativa frustrada, interrompida pelo falecimento do primeiro médico que a acompanhava, ela chegou até o Hospital dos Olhos de Vitória, para consulta com o oftalmologista Pedro Trés Vieira Gomes. “Quando cheguei, fiz todos os exames no mesmo dia e já saí com a cirurgia marcada. Ele me passou muita segurança”, relata.
Um caso raro na oftalmologia
De acordo com o oftalmologista, casos como o de Ângela exigem avaliação criteriosa e tecnologia adequada. “Esta cirurgia nós fazemos rotineiramente, porém não com tanta frequência nesse grau”, diz o médico.
“Estamos falando de uma miopia extremamente alta, que compromete completamente a qualidade de vida do paciente. É fundamental uma análise detalhada para indicar o melhor tratamento”, explica.
Ele destaca que, com o avanço das técnicas e das lentes intraoculares, hoje já é possível oferecer alternativas para pacientes que antes eram considerados casos sem solução. “O objetivo não é apenas melhorar a visão, mas devolver autonomia e qualidade de vida, como aconteceu com esta paciente”, explica.
A cirurgia que mudou tudo
Ângela passou pela cirurgia no mês de março, o procedimento foi rápido, seguro e sem dor, segundo ela.
“Eu não senti nada. Foi muito tranquilo. Meu marido estava mais nervoso do que eu. O resultado veio logo depois, e superou expectativas, mas é muito melhor do que eu imaginava. Minha vida começou agora”, destaca.
Uma nova vida aos 54 anos
Hoje, Ângela vive algo que nunca experimentou antes: independência.
Atividades simples se tornaram conquistas marcantes. Ela já consegue sair sozinha, andar com segurança e interagir com o ambiente de forma que nunca foi possível antes. Eu nunca pude andar sozinha, principalmente à noite. Tinha medo de sair, de bater em alguma coisa, de não reconhecer as pessoas”, relata.
Situações que antes eram constrangedoras, ficaram no passado.
“Uma vez eu bati de frente com uma porta de vidro porque não enxerguei. Isso me marcou muito. “Hoje eu consigo ver, consigo me orientar. Parece que eu estou começando a viver agora”, explica.
Sonhos que começam a sair do papel
Ângela já iniciou o processo para tirar a carteira de motorista e começou um curso de estética, algo que sempre quis, mas nunca conseguiu por conta da limitação visual. A transformação também impactou sua autoestima e sua forma de se relacionar com as pessoas. “Eu sempre fui muito fechada por causa disso. Hoje não. Hoje eu me sinto mais livre”, diz.
Para o oftalmologista Pedro Trés, histórias como a de Ângela mostram a importância de nunca desistir de tratamentos, de buscar atendimento e soluções na medicina. “Não estamos falando apenas de visão. Estamos falando de devolver dignidade, autoestima e liberdade. Isso muda completamente a vida do paciente”, pontua.