Saúde

Anvisa aprova medicamento oral para câncer de mama avançado

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro do Etcamah (camizestranto), novo medicamento oral destinado ao tratamento de pacientes adultas com câncer de mama localmente avançado ou metastático. A indicação é voltada a tumores positivos para receptor de estrogênio (ER+) e negativos para HER2, quando surge uma mutação no gene ESR1 durante o tratamento hormonal e ainda não há sinais de progressão da doença.

A principal novidade está na possibilidade de identificar alterações moleculares antes que o câncer volte a apresentar crescimento detectável nos exames de imagem. O ESR1 está relacionado ao receptor de estrogênio e pode sofrer alterações durante o tratamento, levando as células tumorais a desenvolver resistência à terapia hormonal. Com o novo medicamento, a mudança de tratamento pode ser considerada a partir da identificação dessa mutação no sangue, por meio da chamada biópsia líquida.

O camizestranto pertence a uma nova geração de medicamentos conhecidos como degradadores seletivos do receptor de estrogênio. Na prática, ele atua bloqueando o receptor e também promovendo sua degradação dentro das células tumorais, reduzindo os estímulos hormonais que contribuem para o crescimento do tumor.

A estratégia foi avaliada no estudo internacional SERENA-6, que acompanhou pacientes com câncer de mama avançado ER positivo e HER2 negativo que desenvolveram a mutação ESR1 durante o tratamento. Mais de 3,2 mil pacientes foram inicialmente testadas para a presença da alteração genética. Desse grupo, 315 apresentaram o perfil necessário para participar da etapa de comparação entre a troca para camizestranto e a manutenção da terapia anterior.

Os resultados publicados no New England Journal of Medicine mostraram que o tempo mediano sem progressão da doença foi de 16 meses entre as pacientes que passaram a receber camizestranto, contra 9,2 meses entre aquelas que continuaram com o inibidor de aromatase. O estudo também apontou uma redução de 56% no risco de progressão da doença ou morte no grupo que fez a troca de tratamento.

Para a ginecologista e obstetra Dra. Ana Bimbato, da Bluzz, os resultados chamam atenção por aproximarem o tratamento de uma oncologia cada vez mais baseada nas características individuais de cada tumor.

“A identificação de uma alteração molecular como a mutação ESR1 pode mostrar que o tumor está desenvolvendo resistência ao tratamento antes mesmo de uma progressão ser percebida nos exames de imagem. Isso permite que a equipe médica tenha uma informação adicional para avaliar, de forma antecipada e individualizada, a necessidade de mudança da estratégia terapêutica”, explica.

A especialista ressalta, porém, que a novidade não significa que o medicamento será indicado para todos os casos de câncer de mama. A aprovação da Anvisa estabelece critérios específicos, incluindo o tipo de receptor presente no tumor, a presença da mutação ESR1 e o histórico de tratamento. Por isso, a avaliação médica continua sendo fundamental para definir a estratégia mais adequada para cada paciente.

No Brasil, o câncer de mama permanece como o tipo de câncer mais incidente entre as mulheres. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), foram previstos 73.610 novos casos por ano no país entre 2023 e 2025, correspondendo a cerca de 30% dos casos de câncer entre mulheres.

A aprovação do camizestranto amplia as alternativas disponíveis para um grupo específico de pacientes e reforça uma tendência da oncologia de utilizar informações genéticas e moleculares para orientar decisões terapêuticas. O medicamento ainda passa pela etapa de definição de preço pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) antes de chegar ao mercado brasileiro.

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