Colapso de parte de uma geleira provoca destruição e reforça preocupação com os riscos de eventos extremos em regiões montanhosas
O desastre que atingiu áreas do Nepal e do Tibete nesta semana deixou um cenário de mortes e destruição e voltou a chamar a atenção internacional para os impactos dos eventos extremos em regiões montanhosas. As causas da tragédia ainda estão sendo investigadas, mas análises preliminares indicam que parte de uma geleira teria se desprendido, provocando o deslocamento de grandes volumes de gelo, rochas e sedimentos, seguido por uma inundação repentina.
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Embora ainda não seja possível estabelecer uma relação direta entre o episódio e as mudanças climáticas, especialistas alertam que o aquecimento global vem acelerando o derretimento das geleiras e pode contribuir para aumentar a instabilidade de determinadas áreas.
“O que aconteceu no Nepal mostra que a crise climática não é uma previsão distante. Seus sinais já estão nas geleiras, nas ondas de calor, nas secas, nos incêndios e nas chuvas extremas que atingem diferentes partes do planeta”, afirma Luana Romero, especialista em sustentabilidade e presidente do Instituto Ideias.
As geleiras são grandes reservas naturais de água formadas ao longo de centenas ou milhares de anos. Elas desempenham um papel importante na regulação climática, no abastecimento de rios e na manutenção de ecossistemas, além de contribuírem para atividades como agricultura e geração de energia.
Com o aumento das temperaturas médias do planeta, essas massas de gelo vêm perdendo volume e recuando. O processo pode provocar a formação ou expansão de lagos glaciais e deixar encostas mais instáveis, aumentando a possibilidade de avalanches, deslizamentos e inundações repentinas.
Dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM) apontam que, entre 2000 e 2023, as geleiras do planeta perderam, em média, 273 bilhões de toneladas de gelo por ano.
“Quando uma geleira derrete, a consequência não é apenas a perda do gelo. No curto prazo, podem aumentar os riscos para as comunidades que vivem nas montanhas e nos vales. No longo prazo, o desaparecimento dessas reservas ameaça o abastecimento de água, a produção de alimentos, a geração de energia e o equilíbrio dos ecossistemas”, explica Luana.
Outro impacto do derretimento é a contribuição para a elevação do nível do mar, aumentando a vulnerabilidade de cidades e comunidades costeiras. Ao mesmo tempo, populações que dependem da água proveniente das geleiras podem enfrentar períodos de escassez à medida que essas reservas diminuem.
O cenário global reforça a preocupação dos cientistas. Segundo a OMM, os últimos 11 anos foram os 11 mais quentes já registrados.
Os efeitos do aquecimento global já podem ser observados em diferentes regiões, com ondas de calor mais intensas e prolongadas, secas, incêndios florestais, chuvas concentradas em curtos períodos e enchentes.
Para especialistas, enfrentar a crise climática exige ações simultâneas de redução das emissões de gases de efeito estufa e de adaptação aos impactos que já estão ocorrendo.
Entre as medidas estão o combate ao desmatamento, a expansão das energias renováveis, a recuperação de florestas e outros ecossistemas e a adoção de modelos mais sustentáveis de produção e transporte.
Também é necessário preparar cidades e comunidades para eventos extremos. Sistemas de alerta, planos de emergência, proteção de encostas, recuperação de rios e florestas, ampliação de áreas verdes, segurança hídrica e infraestrutura mais resistente estão entre as medidas consideradas fundamentais.
“Não basta assumir compromissos para as próximas décadas se as decisões tomadas hoje continuam nos levando na direção contrária. Governos e empresas precisam transformar metas em ações concretas, enquanto as comunidades devem participar da construção das soluções”, ressalta Luana.
Apesar da importância das escolhas individuais, especialistas destacam que a dimensão da crise climática exige mudanças estruturais e políticas públicas de longo prazo.
Evitar desperdícios, consumir de maneira mais consciente e cobrar medidas do poder público e das empresas são atitudes que podem contribuir, mas não substituem ações coordenadas de governos, setor privado e sociedade.
“O desastre no Nepal é um exemplo doloroso de que os sinais estão cada vez mais claros. Ainda podemos evitar os cenários mais graves, mas precisamos reduzir emissões, preparar os territórios e agir com a urgência que a vida das pessoas exige”, conclui Luana.
O episódio reforça, assim, a necessidade de ampliar o monitoramento de áreas vulneráveis, fortalecer sistemas de prevenção e preparar comunidades para os efeitos de um planeta que já apresenta sinais cada vez mais evidentes de transformação climática.