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Podcast Conversa Eklética com Heliomar Venâncio presidente da AsBEA/ES

Arquitetura, tecnologia e cidades: Heliomar Venâncio destaca os novos desafios da profissão no Espírito Santo

Em entrevista ao podcast Conversa Eklética, arquiteto e presidente da AsBEA/ES fala sobre inteligência artificial, sustentabilidade, mobilidade urbana, literatura e a 52ª Convenção Nacional da entidade, que será realizada em Vitória

A arquitetura está presente em praticamente todos os momentos da vida cotidiana. Das casas aos edifícios, das praças às ruas, dos móveis ao planejamento das cidades, o trabalho do arquiteto interfere diretamente na forma como as pessoas vivem, circulam e ocupam os espaços. Em um cenário de rápidas transformações tecnológicas e urbanas, a profissão também passa por mudanças que levantam novas discussões sobre criatividade, conhecimento e inovação.

Foi sobre esses e outros temas que o arquiteto, escritor e presidente da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura do Espírito Santo (AsBEA/ES), Heliomar Venâncio, conversou com a jornalista e apresentadora Luciene Costa, no podcast Conversa Eklética.

Durante o bate-papo, o profissional abordou desde a chegada da inteligência artificial aos escritórios de arquitetura até questões relacionadas à sustentabilidade, mobilidade urbana, valorização dos imóveis, planejamento das cidades e sua trajetória como escritor.

Fundada no Brasil em 1973, em São Paulo, a AsBEA reúne escritórios de arquitetura e atua em diferentes regiões do país. Atualmente, são mais de 500 escritórios associados em âmbito nacional, envolvendo milhares de profissionais.

No Espírito Santo, depois de uma tentativa de criação da entidade na década de 1990, a associação foi oficialmente estabelecida em 5 de junho de 2024, após meses de reuniões e articulações. O movimento começou com 21 escritórios e, dois anos depois, já reúne cerca de 28 associados.

Heliomar Venâncio explica que a proposta é aproximar profissionais que, muitas vezes, trabalham de maneira individualizada e acabam tendo pouco contato com outros escritórios.

Segundo ele, a associação permite uma troca constante de experiências sobre temas como tributação, honorários, mercado, softwares, tecnologia e processos de trabalho. Ao mesmo tempo, fortalece a representatividade dos arquitetos diante do poder público, do setor empresarial e da sociedade.

A entidade também é chamada a contribuir em discussões relacionadas ao planejamento urbano. Questões como implantação de ciclovias, verticalização, legislação e planos diretores municipais fazem parte dos debates que podem contar com a participação da associação.

A intenção é reunir a experiência de diferentes escritórios para colaborar com decisões que impactam diretamente a qualidade de vida da população.

Para Heliomar, a arquitetura precisa ser pensada em diferentes escalas. O profissional pode atuar desde o projeto de uma residência, de um móvel ou de um ambiente até o planejamento de vias, bairros e cidades inteiras.

Um dos temas abordados na entrevista foi a relação entre arquitetura, planejamento e economia. Ainda existe, segundo o arquiteto, a percepção de que contratar um profissional pode encarecer uma obra. Na prática, entretanto, um projeto bem planejado pode reduzir desperdícios e evitar gastos desnecessários.

Ao conhecer materiais, fornecedores e soluções técnicas, o arquiteto consegue adequar o projeto ao orçamento do cliente, buscando equilíbrio entre estética, funcionalidade e custo.

O planejamento também contribui para evitar espaços mal aproveitados e alterações durante a execução da obra. Além disso, uma construção pensada de maneira adequada tende a ter maior valor de mercado.

A arquitetura, portanto, não se limita à beleza. Uma janela bem posicionada pode favorecer a ventilação e a iluminação natural. Um ambiente bem distribuído melhora a circulação. Uma praça bem planejada pode contribuir para a convivência e para a qualidade de vida.

Heliomar também chama atenção para o alto número de construções realizadas sem acompanhamento profissional. Segundo dados citados por ele durante a entrevista, mais de 80% das construções brasileiras não contariam com a participação de um arquiteto ou urbanista.

Para o profissional, o conhecimento adquirido durante a formação acadêmica, somado à experiência prática, é fundamental para desenvolver projetos que sejam mais eficientes, seguros, funcionais e adequados às necessidades de cada pessoa.

Um dos principais assuntos discutidos no podcast foi a inteligência artificial e seus impactos sobre a arquitetura.

A pergunta que muitos profissionais fazem atualmente é: a inteligência artificial vai substituir o arquiteto?

Na avaliação de Heliomar Venâncio, a tecnologia não representa o fim da profissão. Pelo contrário, pode se tornar uma ferramenta importante para ampliar a produtividade e agilizar determinadas etapas dos projetos.

Ele conta que já é comum o cliente chegar ao escritório com imagens produzidas por ferramentas de inteligência artificial e apresentar uma ideia pronta para sua futura casa. Nesse momento, cabe ao arquiteto compreender as reais necessidades da família, avaliar a viabilidade do projeto e transformar expectativas em uma solução adequada.

A inteligência artificial também pode ser utilizada em tarefas específicas. Entre os exemplos citados estão simulações de terrenos, estudos de ocupação, análise de possibilidades construtivas e até cálculos relacionados à quantidade de vagas de estacionamento que podem ser implantadas em determinado espaço.

Em vez de realizar manualmente diversas simulações, o profissional pode utilizar ferramentas tecnológicas para obter resultados em menos tempo.

Para Heliomar, a tecnologia depende de quem está utilizando a ferramenta. O arquiteto precisa compreender o processo, saber formular os comandos e, principalmente, ter conhecimento suficiente para avaliar se a resposta apresentada pela inteligência artificial está correta.

Ele também faz um alerta para estudantes de arquitetura: o uso exagerado da tecnologia durante a formação pode comprometer o desenvolvimento da criatividade e do pensamento crítico.

A inteligência artificial, na visão do profissional, deve ser utilizada como aliada, e não como substituta da capacidade humana.

Convenção nacional coloca Vitória no centro da arquitetura brasileira

É nesse contexto de transformação tecnológica e profissional que a AsBEA/ES realiza, pela primeira vez no Estado, a 52ª Convenção Nacional da AsBEA.

O evento acontece entre os dias 5 e 8 de agosto, em Vitória, reunindo profissionais e escritórios de diversas regiões do país.

A abertura oficial será realizada no dia 5 de agosto, no Salão São Tiago e no Pátio Interno do Palácio Anchieta, com uma aula magna seguida de coquetel de confraternização.

A programação principal terá atividades no Sheraton Hotel, além de visitas técnicas a diferentes locais. Estão previstas visitas relacionadas a projetos de destaque, às pedras naturais e ao prédio da Petrobras, considerado um case de sucesso.

O evento também terá um passeio pela Baía de Vitória, pensado como uma oportunidade para apresentar aos visitantes um pouco das belezas e características do Espírito Santo.

A convenção contará com a participação de grandes escritórios de arquitetura do país, além de palestrantes e empresas patrocinadoras. A expectativa é promover uma ampla troca de experiências, conhecimento e networking.

De acordo com Heliomar, o encontro também representa uma oportunidade para que Vitória e o Espírito Santo sejam apresentados a profissionais que atuam como formadores de opinião em diferentes regiões brasileiras.

A expectativa é que a presença desses visitantes gere repercussão para o Estado e contribua para movimentar setores como turismo, gastronomia, hotelaria e serviços.

A realização conta com apoio do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Turismo, e da Prefeitura de Vitória.

A atuação do arquiteto, segundo Heliomar, não deve ficar restrita ao interior dos escritórios. O profissional também precisa observar a cidade e identificar problemas e possibilidades de transformação.

Um exemplo citado durante a entrevista foi a proposta de criação de uma ciclovia na Terceira Ponte, apresentada por Heliomar ainda em 2016, quando a ideia parecia distante da realidade.

Na época, o arquiteto desenvolveu imagens em 3D e apresentou a proposta, que acabou viralizando nas redes sociais. O projeto não avançou naquele momento, mas, anos depois, a Terceira Ponte ganhou uma ciclovia.

Heliomar destaca que a ideia apresentada por ele tinha também uma preocupação relacionada à segurança e à prevenção de suicídios, inspirada em soluções adotadas em outras grandes pontes do mundo.

Para o arquiteto, a implantação de ciclovias precisa fazer parte de uma política mais ampla de mobilidade urbana, conectando diferentes municípios e oferecendo alternativas ao transporte individual.

Ele defende uma rede que permita a integração entre Vitória, Vila Velha e Serra, entre outras regiões, ampliando as possibilidades de deslocamento.

A discussão também envolve o crescimento do uso de bicicletas elétricas e outros veículos de mobilidade individual. Para Heliomar, é necessário que o avanço desses meios de transporte seja acompanhado de responsabilidade, segurança e organização.

A sustentabilidade é outro tema presente na trajetória profissional de Heliomar Venâncio.

O arquiteto começou sua carreira literária justamente a partir de um manual que reunia práticas sustentáveis utilizadas em seus projetos. O material abordava questões como ventilação, iluminação natural, telhados verdes, tratamento de resíduos e escolha de materiais.

O conteúdo acabou dando origem ao livro “Minha Casa Sustentável”, sua primeira publicação, lançada em 2010.

A obra ganhou espaço no mercado editorial, passou a ser utilizada como referência em trabalhos acadêmicos e chegou a ser adotada pela Secretaria de Educação de São Paulo. O livro também alcançou leitores em Portugal e na Espanha.

A experiência abriu caminho para outras publicações.

Ao todo, Heliomar já lançou cinco livros voltados à arquitetura e áreas relacionadas. Entre os temas estão sustentabilidade, desenho arquitetônico, técnicas de construção, urbanismo e arquitetura com contêineres.

Uma das obras nasceu de sua dissertação de mestrado, defendida na Universidade Vila Velha (UVV), que propõe a transformação do Canal da Costa em um parque linear de aproximadamente 10 quilômetros, conectando diferentes áreas e criando novas possibilidades de integração urbana.

Outro livro aborda a utilização de contêineres na construção civil, área em que o arquiteto atua com foco em soluções sustentáveis e reaproveitamento de estruturas.

A produção literária de Heliomar agora ganha um novo público: as crianças.

O arquiteto prepara um livro voltado principalmente para crianças entre 8 e 10 anos, com conteúdos sobre arquitetura, urbanismo, sustentabilidade e ecologia.

A proposta é traduzir conceitos que muitas vezes parecem complexos para uma linguagem simples, acompanhada de ilustrações coloridas e textos curtos.

O livro aborda temas como economia de água e energia, reciclagem, separação de resíduos e cuidados com a casa e com a cidade.

A publicação também pretende explicar às crianças questões relacionadas ao planejamento urbano, como os motivos que levam cidades a crescerem de determinadas maneiras e os problemas de construir em áreas de risco, encostas ou próximas a rios.

A ideia é estimular uma consciência cidadã desde a infância, mostrando que cuidar do meio ambiente e da cidade é uma responsabilidade coletiva.

Ao completar dois anos de atuação no Espírito Santo, a AsBEA/ES busca ampliar o número de escritórios associados e consolidar uma rede de profissionais comprometidos com a valorização da arquitetura e do urbanismo.

A associação também promove encontros, palestras e capacitações para os profissionais, com discussões que passam por sustentabilidade, tecnologia, inteligência artificial, urbanismo e novas ferramentas de trabalho.

Para Heliomar, mais do que reunir arquitetos, a entidade representa uma oportunidade de criar um espaço permanente de diálogo sobre o presente e o futuro das cidades.

A 52ª Convenção Nacional, que terá Vitória como sede, representa um dos principais momentos dessa trajetória. A expectativa é que o encontro contribua para fortalecer a arquitetura capixaba, ampliar a integração com profissionais de outros estados e colocar o Espírito Santo no mapa nacional das discussões sobre inovação, tecnologia, sustentabilidade e planejamento urbano.

A mensagem deixada pelo arquiteto durante a conversa com Luciene Costa é que o futuro da profissão não será construído apenas pela tecnologia. A inteligência artificial pode acelerar processos, mas criatividade, experiência, conhecimento e sensibilidade continuam sendo fundamentais para transformar espaços em lugares capazes de melhorar a vida das pessoas.

E, nesse cenário, a arquitetura segue com a missão de olhar para o presente, compreender as necessidades da sociedade e ajudar a construir cidades mais humanas, sustentáveis, acessíveis e preparadas para o futuro.

O episódio completo do Podcast Conversa Eklética está disponível nas plataformas digitais e nas redes sociais do programa.

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