Saúde

Uso indiscriminado de suplementos acende alerta entre especialistas

O consumo de suplementos alimentares no Brasil vive um dos períodos de maior crescimento da última década e, junto com ele, aumenta também o risco de uso inadequado e prejuízos à saúde. Hoje, o país é o terceiro maior consumidor de suplementos do mundo, segundo dados da ABIAD (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres), 59% dos brasileiros relatam ter usado algum tipo de suplemento no último ano. Um dado que preocupa os médicos é que 41% iniciaram o consumo sem qualquer orientação profissional.
Além do aumento expressivo, um fenômeno chama atenção dos especialistas: a influência das redes sociais. Pesquisas mostram que 80% dos jovens que consomem suplementos afirmam ter sido motivados por recomendações de influenciadores digitais, muitas vezes baseadas em promessas rápidas e sem respaldo científico. Estudo da Revista Brasileira de Medicina do Esporte aponta que 30% dos produtos divulgados nas redes exibem informações nutricionais incompletas ou incorretas, criando um ambiente favorável para erro, automedicação e abuso.
A endocrinologista Gisele Lorenzoni explica que o problema não está nos suplementos em si, mas na forma como são usados. “A suplementação tem seu lugar, mas precisa ser feita com critério, acompanhamento e ciência. Informação e equilíbrio são sempre o melhor suplemento.”
O alerta é reforçado por dados internacionais. A FDA registra que até 20% dos casos de hepatotoxicidade medicamentosa nos Estados Unidos estão relacionados ao uso de suplementos naturais ou produtos vendidos sem prescrição. A Anvisa identificou irregularidades em mais de 30% dos suplementos disponíveis para compra online, incluindo composição adulterada ou substâncias não declaradas no rótulo.
Mesmo suplementos considerados comuns podem gerar riscos quando utilizados sem orientação. O excesso de vitaminas lipossolúveis, como A, D, E e K, pode causar toxicidade. A creatina usada de forma inadequada sobrecarrega os rins em pessoas com doenças pré-existentes. O ômega 3 em doses muito altas aumenta o risco de arritmias em indivíduos predispostos. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia estima que apenas 15% das pessoas que suplementam realmente têm deficiência diagnosticada, mostrando que a maioria consome por influência e não por necessidade.
A discrepância entre quem precisa e quem suplementa fica clara quando se observa que apenas 7% dos brasileiros apresentam deficiência comprovada de vitamina D, mas 42% fazem uso regular da vitamina. Situação semelhante ocorre com o ferro, cujo excesso pode causar sobrecarga hepática, mas é consumido sem prescrição por 21% dos usuários de suplementos.
Além dos riscos individuais, o cenário evidencia um fenômeno coletivo. O mercado de suplementos movimenta atualmente R$ 2,7 bilhões por ano no Brasil, com previsão de crescimento de até 12% ao ano até 2028.
Para a endocrinologista Gisele, o caminho mais seguro começa com exames, avaliação clínica e ajustes de estilo de vida. “Muitos sintomas poderiam ser resolvidos com investigação médica e mudanças de hábito, não com suplementação. Nem tudo que parece inofensivo é seguro.”
Para os especialistas, o recado é claro: suplementar pode fazer parte do cuidado com a saúde, desde que seja a parte certa, no momento certo e com acompanhamento qualificado.

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