Pesquisa iniciada em 2016 na Serra Gaúcha avalia novas variedades para produzir vinhos mais leves, frescos e com menor teor alcoólico
A busca por vinhos mais leves, frescos e com menor teor alcoólico está impulsionando novas pesquisas na vitivinicultura brasileira. Atenta às mudanças climáticas e às preferências dos consumidores, a Cooperativa Vinícola Garibaldi apresentou os resultados de uma década de experimentação com novas variedades de uvas durante a ProWine São Paulo, realizada no Expo Center Norte, em São Paulo.
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A masterclass “Os Vinhos do Amanhã: Novas Cultivares e Oportunidades para a Vitivinicultura Brasileira na Experiência da Cooperativa Vinícola Garibaldi”, conduzida pelo enólogo Ricardo Morari na quarta-feira (7), reuniu sommeliers, apreciadores e profissionais do setor para uma degustação de seis vinhos elaborados com uvas originárias de países como Itália, Romênia, Geórgia, República Tcheca e Hungria.
A iniciativa revelou como a pesquisa e a adaptação de novas cultivares podem abrir caminhos para o desenvolvimento de produtos alinhados às transformações do mercado, sem deixar de considerar a realidade dos produtores rurais e a sustentabilidade econômica da cadeia vitivinícola.
O aumento das temperaturas, a necessidade de reduzir o uso de defensivos agrícolas e aditivos enológicos e a mudança nos hábitos de consumo estão entre os fatores que motivam a pesquisa. Enquanto o calor favorece o acúmulo de açúcar nas uvas e pode resultar em vinhos com maior teor alcoólico, parte dos consumidores demonstra preferência por bebidas mais leves, com frescor e menor concentração.
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“A natureza vem nos entregando o oposto do que o mercado procura. O calor dá origem a uvas com mais açúcar e a vinhos mais alcoólicos e concentrados, enquanto o consumidor pede frescor, leveza e menos álcool”, explicou Morari durante a apresentação.
Nesse cenário, a Serra Gaúcha reúne condições favoráveis para explorar novas possibilidades de produção. Segundo o enólogo, a região permite elaborar tintos equilibrados, frutados e com frescor, naturalmente com teores alcoólicos entre 12% e 12,5%. Nos vinhos brancos e espumantes, essa característica também representa uma oportunidade.
Morari, no entanto, destacou que o setor precisa acompanhar as mudanças com atenção, já que as condições climáticas e as preferências do mercado evoluem rapidamente.
O trabalho da Cooperativa Vinícola Garibaldi começou em 2016, com a implantação de uma área experimental de pouco menos de um hectare em Santa Tereza, no Rio Grande do Sul. O local, com clima mais quente do que o de Garibaldi, recebeu 50 fileiras de videiras, cada uma dedicada a uma cultivar.
As mudas foram obtidas por meio de um viveiro parceiro na Itália. Como muitas variedades ainda não tinham histórico de cultivo no Brasil, foi necessário providenciar seus registros junto ao Ministério da Agricultura.
Após os primeiros anos de desenvolvimento no campo, as uvas que demonstraram melhor adaptação passaram por microvinificações, processo que permite avaliar o potencial de cada variedade em pequenos lotes de aproximadamente 35 litros.
Na safra de 2026, foram realizadas 22 microvinificações. O acompanhamento envolve todas as etapas, da poda à colheita, com avaliações de produtividade por planta e por hectare, análises físico-químicas e observação da resistência às doenças fúngicas.
Além das características agronômicas e enológicas, a pesquisa considera a viabilidade financeira para os cooperados. A proposta é identificar variedades capazes de oferecer qualidade, resistência e produtividade, contribuindo para a rentabilidade dos produtores.
“Quando falamos em sustentabilidade, não é somente o meio ambiente. É a sustentabilidade da cooperativa, o econômico tem peso, porque para cuidar do meio ambiente o produtor precisa ter condição financeira e, para isso, é fundamental que sua produção no vinhedo seja rentável”, ressaltou o enólogo.
Durante a masterclass, o público conheceu diferentes expressões das cultivares avaliadas pela cooperativa. Entre elas está a Soreli, variedade branca italiana associada a um projeto de pesquisa da região de Udine, com o qual a Garibaldi mantém parceria.
A uva é classificada como PIWI, denominação utilizada para variedades que apresentam resistência genética a doenças fúngicas. Com baixo acúmulo de açúcar e acidez elevada, a Soreli apresenta características favoráveis à elaboração de vinhos leves e espumantes.
As primeiras microvinificações chamaram a atenção pelo perfil aromático, que remetia a pêssego em calda. A cooperativa já prepara novas mudas, com previsão de ampliar o plantio no início de 2027. O primeiro vinho comercial elaborado com a variedade poderá chegar ao mercado em dois ou três anos.
Outra cultivar que se aproxima do lançamento comercial é a romena Busuioaca de Bohotin. Com cachos semelhantes aos do Moscato, mas com película colorida, a uva deu origem a um rosé com 11% de álcool, notas florais, lembranças de morango e um discreto toque vegetal.
O bom desempenho no campo, com produtividade próxima de 30 toneladas por hectare e boa sanidade, incentivou cooperados a iniciar o plantio da variedade. O vinho será envasado no início de dezembro e tem chegada às lojas prevista para janeiro de 2027, integrando a linha In Veritas.
A georgiana Alexandrouli também despertou interesse. Após três anos de microvinificações, a cultivar apresentou potencial para a elaboração de um clarete, estilo de vinho tinto de coloração mais clara. O resultado tem 11,7% de álcool, taninos presentes, boa acidez e aromas delicados e frutados.
A aposta, segundo Morari, envolve também um desafio comercial, já que parte do público ainda associa os vinhos tintos a maior intensidade de cor e corpo.
“Sabemos que o grande consumidor ainda procura vinhos com mais cor e mais corpo. Colocar um clarete no mercado é um desafio e uma aposta que vamos fazer”, afirmou.
A degustação também incluiu vinhos que já chegaram ao mercado. Um deles foi o Garibaldi In Veritas Pálava, elaborado com uma variedade criada na República Tcheca na década de 1970, a partir do cruzamento entre Gewürztraminer e Müller-Thurgau.
O rótulo faz referência à fileira de número 50, onde a cultivar foi inicialmente plantada na área experimental da cooperativa. Premiado em concursos nacionais e internacionais, incluindo medalha de ouro no Concours Mondial de Bruxelles de 2025, o vinho combina notas florais e de frutas brancas, frescor e acidez.
Outro destaque foi o Muscaris, também pertencente ao grupo PIWI, que apresenta resistência genética a doenças fúngicas e integra as alternativas estudadas para a vitivinicultura.
A apresentação terminou com o Garibaldi In Veritas Irsai Oliver, produzido com uma cultivar húngara de ascendência moscatel. Lançado com a safra 2025, o vinho conquistou medalha de ouro no concurso Bacchus, realizado na Espanha, em 2026.
Com 10,8% de álcool, apresenta aromas de flor de laranjeira e pêssego. A película resistente da uva também contribui para dificultar a entrada de agentes causadores de doenças.
Ao apresentar os resultados da pesquisa, a Cooperativa Vinícola Garibaldi reforçou a importância de diversificar as variedades cultivadas no Brasil para responder aos desafios climáticos e às novas demandas do mercado.
O trabalho busca identificar uvas capazes de combinar adaptação ao ambiente, produtividade, resistência a doenças e características sensoriais valorizadas pelos consumidores. A estratégia também amplia as possibilidades de criação de novos estilos de vinho, especialmente aqueles que privilegiam leveza, frescor e menor teor alcoólico.
Com variedades em diferentes estágios de avaliação e comercialização, a experiência desenvolvida na Serra Gaúcha demonstra como a pesquisa de longo prazo pode contribuir para a inovação no setor, oferecendo alternativas para produtores e novas experiências para quem aprecia vinho.