Com juros elevados, consórcio ganha espaço entre quem planeja comprar carro, viajar ou investir em serviços sem pagar taxas mensais variáveis
O aumento dos juros tem mudado a forma como capixabas planejam grandes compras. Em vez de recorrer ao financiamento tradicional, cada vez mais pessoas têm optado pelo consórcio como alternativa para diluir custos, evitar juros e organizar o orçamento no médio e longo prazo. A busca pela modalidade cresce especialmente entre quem não tem urgência imediata para adquirir um bem ou serviço, mas quer fugir do impacto das taxas elevadas.
Esse movimento já aparece nos números. O Sicredi encerrou 2025 com crescimento no número de consorciados no Espírito Santo e expansão da carteira, que superou R$ 585 milhões no Estado. Do total, os associados pessoa física representam 42%, seguidos por pessoa jurídica, com quase 40%, e pelo público agro, com pouco mais de 18%.
Na Sicredi Serrana, a procura por consórcios vem aumentando, segundo a gerente de negócios pessoa física Natalie Leitão Melo. Ela explica que o cenário atual de crédito mais caro tem levado associados a buscar opções de compra planejada. “O financiamento entrega o bem na hora, mas você paga mais caro. O consórcio é mais barato, só que exige planejamento. A grande diferença é que não existe juros, e sim uma taxa de administração única para todo o contrato”, afirma.
Taxa única no lugar de juros
De acordo com Natalie, a principal vantagem do consórcio é a previsibilidade. No caso do consórcio de viagem contratado pela associada Priscila Bernardo Lemos, de 39 anos, a taxa de administração foi de 13%, diluída ao longo de 36 meses, sem variação ao longo do contrato, o que faz com que o custo mensal, quando distribuído pelo prazo, seja significativamente menor do que o de um financiamento.
O consórcio funciona como um grupo de pessoas que contribuem mensalmente para formar um fundo comum. A cada mês, cartas de crédito são liberadas por sorteio ou por lances, que podem ser pagos com recursos próprios ou, em alguns casos, de forma embutida na própria carta. Mesmo após a contemplação, o consorciado continua pagando as parcelas até o fim do contrato.
Embora veículos ainda liderem a procura, o consórcio deixou de ser restrito a carros e imóveis, passando a atender a diferentes objetivos. Hoje a modalidade contempla opções como viagens, imóveis, reformas, caminhões e até procedimentos estéticos.
No Espírito Santo, o crescimento mais expressivo foi justamente nas modalidades mais flexíveis. O consórcio de serviços liderou a expansão em 2025, com alta de 83,3% em relação ao ano anterior, seguido por automóveis (61,6%), pesados (45,7%) e imóveis (39,7%). Entre pessoas físicas, o destaque foi o consórcio de imóveis, com crescimento superior a 150%, além de serviços e automóveis.
A gerente destaca que o consórcio não é indicado para quem precisa do bem imediatamente. “Se a pessoa chega dizendo que quer o carro para a semana seguinte, o consórcio não é para ela. É preciso ter prazo ou capacidade de dar um lance alto. O erro é criar uma expectativa que não pode ser cumprida”, afirma.
Foi justamente o planejamento que levou Priscila a optar pelo consórcio. Ela começou a pensar na modalidade ao organizar uma viagem para a Itália, realizada em 2025. Ao planejar essa experiência, decidiu já contratar um consórcio pensando em uma nova viagem no ano seguinte. “Eu queria algo de longo prazo. Se fosse guardar o dinheiro sozinha, sempre surgia alguma despesa e eu acabava não guardando”, conta.
Após cerca de 15 meses de pagamento, Priscila decidiu ofertar um lance em novembro e foi contemplada na assembleia seguinte. Com a carta de crédito, ela conseguiu fechar uma viagem de 15 dias, sendo 13 na Tailândia e dois em Singapura, programada para novembro de 2026.
Esse avanço também aparece entre empresas e produtores rurais. Entre pessoas jurídicas, a modalidade serviços registrou crescimento de 190%, com automóveis na sequência. Já entre os associados do agro, o destaque foi para consórcios de pesados, que cresceram 126,5% em comparação com 2024.
A viagem já está integralmente paga e, embora continue quitando as parcelas do consórcio, todo o planejamento financeiro já está organizado, o que tornou a escolha mais assertiva e mais econômica do que recorrer a um financiamento.
Qualquer pessoa acima de 18 anos pode participar de um consórcio. De acordo com Natalie, no momento da adesão não é exigida comprovação de renda, já que inicialmente não há um bem alienado. No entanto, na fase de contemplação, o associado não pode ter restrições de crédito e precisa comprovar renda compatível com o valor das parcelas, além de apresentar a documentação necessária para a liberação do crédito.
Os prazos variam conforme o tipo de consórcio. Para veículos, podem chegar a até 100 meses. Para imóveis, o prazo pode ser ainda maior. A escolha do plano depende do valor da carta e do objetivo do associado.
O gerente pessoa física da Sicredi Serrana, John Lenon Galina Calente, afirma que o consórcio atrai pessoas de diferentes idades. “Não existe um perfil etário específico. A escolha está muito mais ligada ao momento de vida do associado e ao tipo de planejamento que ele quer fazer”, diz.
Segundo o gerente, o consórcio se destaca por favorecer uma organização financeira mais consciente, sendo uma alternativa para quem pretende planejar a compra de um bem ou serviço no longo prazo, com custos menores do que o financiamento e maior controle do orçamento.
Entre os associados que optaram pela modalidade está César Schneider, 18 anos, que iniciou um consórcio em outubro com foco na compra de uma bicicleta elétrica. Ele ainda não foi contemplado, mas vem ofertando lances para antecipar a aquisição. “Escolhi o consórcio principalmente pela diferença nas taxas. Não tem juros e isso facilita muito o planejamento”, afirma.
Cesar avalia que o consórcio também pode funcionar como uma forma de investimento, já que, no momento da contemplação, o crédito pode ser direcionado para outros usos caso a compra inicialmente planejada não seja realizada.