Autismo na terceira idade amplia debates sobre diagnóstico e cuidado ao longo da vida
O reconhecimento do transtorno do espectro autista (TEA) em pessoas idosas tem ampliado o debate sobre diagnóstico, cuidado continuado e políticas públicas voltadas ao envelhecimento com inclusão. Embora o autismo seja uma condição do neurodesenvolvimento que acompanha o indivíduo ao longo de toda a vida, por décadas esteve associado quase exclusivamente à infância, o que contribuiu para o subdiagnóstico em gerações mais velhas.
Dados do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), identificaram cerca de 2,4 milhões de brasileiros com diagnóstico de TEA, incluindo pessoas com 60 anos ou mais. Levantamento acadêmico baseado nessas informações aponta que aproximadamente 0,86% da população idosa se autodeclara dentro do espectro, revelando uma realidade ainda pouco discutida quando o tema é envelhecimento.
Especialistas apontam que a ampliação dos critérios diagnósticos ao longo dos anos, especialmente após as atualizações do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria, permitiu que muitos adultos e idosos passassem a reconhecer características do espectro apenas tardiamente. Estudos internacionais indicam subdiagnóstico significativo em pessoas que cresceram antes da consolidação dos atuais parâmetros clínicos, o que fez com que muitos atravessassem a vida sem compreensão adequada de dificuldades sociais, sensoriais ou comunicacionais.
A presidente da Associação dos Amigos dos Autistas do Espírito Santo (Amaes), Pollyana Paraguassú, afirma que o tema precisa ser tratado com sensibilidade e informação qualificada. Segundo ela, é comum que o diagnóstico em idosos surja após a identificação do autismo em um neto, quando a família passa a revisitar comportamentos e histórias do passado. “Quando falamos de autismo em idosos, falamos de pessoas que viveram décadas sem apoio específico. O diagnóstico tardio pode trazer alívio, porque oferece sentido às experiências vividas, mas também impõe a necessidade de políticas públicas que considerem essa fase da vida”, afirma.
Além do reconhecimento clínico, o envelhecimento no espectro pode envolver desafios específicos, como maior vulnerabilidade ao isolamento social, dificuldade de acesso a serviços adaptados e risco de diagnósticos equivocados com condições como depressão ou demência. A Organização Mundial da Saúde (OMS) ressalta que o cuidado à pessoa com autismo deve ser contínuo e integrado, contemplando saúde mental, inclusão social e suporte familiar ao longo de todo o ciclo de vida.
Para Pollyana, ampliar o debate é essencial para garantir dignidade e qualidade de vida a essa população. Ela destaca que o autismo não desaparece com o tempo, mas pode se manifestar de formas distintas em cada etapa. “Precisamos enxergar o espectro além da infância. O idoso autista existe, tem história, tem demandas específicas e precisa ser acolhido dentro das políticas de saúde e assistência social”, conclui.