O Mosteiro Zen Morro da Vargem, em Ibiraçu, finaliza o programa de residências artísticas de 2026 entre 09 e 23 de março, com a participação da artista capixaba luso-brasileira Polliana Dalla Barba, consolidando um ciclo que articulou arte contemporânea, investigação territorial, educação e meio ambiente em diálogo com o cotidiano monástico e a paisagem da Mata Atlântica.
O programa, estruturado a partir da permanência temporária de artistas no espaço, foi desenvolvido ao longo dos anos de 2025 e 2026 como uma plataforma continuada de pesquisa e criação. A proposta não se limita à produção de obras, mas privilegia processos, acompanhamento crítico e interlocução com o público, compreendendo o tempo de imersão como parte constitutiva da prática artística.
A residência acontece na Estação Cultural, núcleo dedicado a ações formativas, experimentação e acompanhamento de processos criativos. Inserida em área de preservação ambiental, a estrutura funciona como ateliê aberto, espaço de reflexão e ponto de encontro entre artista, visitantes e comunidade.
No Mosteiro, a experiência estética é atravessada pelo silêncio, pelo ritmo desacelerado e pela convivência comunitária. O ambiente não opera como cenário, mas como elemento ativo da pesquisa: a floresta, a topografia, os caminhos e a própria disciplina do cotidiano monástico interferem diretamente na construção poética.
A metodologia adotada pelo programa não exige apresentação de resultados conclusivos ou exposições formais. O foco está na investigação em curso, na observação atenta e na experimentação. Trata-se de compreender o território como agente e o tempo prolongado como ferramenta crítica.
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Graduada em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e mestre em Artes Plásticas – Intermídias pela Universidade do Porto (Portugal), Polliana Dalla construiu uma trajetória marcada pelo deslocamento como método de criação.
Sua produção transita entre desenho, cartografia, colagem, texto, vídeo, fotografia e instalação. A artista investiga paisagens, acidentes geográficos e zonas de tensão política, elaborando narrativas que articulam mobilidade, memória e fronteira.
Entre seus projetos está Boliviamar, pesquisa desenvolvida a partir do contexto da Guerra do Pacífico e das disputas territoriais entre Chile, Peru e Bolívia, refletindo sobre limites geográficos e identidades nacionais. Em Serendipidade, cruzou o Atlântico de navio, do Rio de Janeiro a Barcelona, investigando deambulações marítimas e construindo um projeto que resultou em exposições e na produção de um zine.
Em sua dissertação de mestrado, intitulada Zona dos Mistérios, percorreu sítios vulcânicos no Equador, Chile, Argentina, Açores e Itália, examinando a viagem como método artístico e a paisagem geológica como campo simbólico. Nos últimos cinco anos, aprofundou a prática de caminhadas de longa duração por Espanha, Itália, Portugal e Reino Unido, consolidando o deslocamento corporal como estratégia estética e investigativa.
No contexto do Mosteiro Zen Morro da Vargem, sua pesquisa se volta para a escuta do território capixaba, articulando percurso, registro e reflexão sobre presença, permanência e deslocamento.
Como parte das ações de mediação cultural, a residência prevê dois domingos de visitação aberta ao público, nos dias 15 e 22 de março. Nessas datas, visitantes poderão acessar a Estação Cultural, conhecer materiais em desenvolvimento e participar de conversas com a artista sobre os caminhos da investigação.
Os encontros não assumem o formato de exposição convencional, mas operam como partilhas de processo. A proposta é ampliar o acesso à arte contemporânea por meio do diálogo direto, favorecendo a compreensão do percurso criativo antes de sua consolidação formal.
Ao concluir o calendário de residências de 2026, o Mosteiro reafirma seu papel como território de convergência entre criação artística, formação crítica e consciência ambiental. A inserção em área de Mata Atlântica preservada amplia a discussão sobre práticas sustentáveis e responsabilidade ecológica na arte contemporânea.
O programa é realizado com recursos da Lei de Incentivo à Cultura Capixaba (LICC), por meio da Secretaria da Cultura do Governo do Estado do Espírito Santo, com patrocínio da EDP e apoio institucional do Mosteiro Zen Morro da Vargem.