A administração pública brasileira sempre conviveu com o peso sufocante de seus próprios gargalos. Não faltam diagnósticos nem diagnósticos de diagnósticos. O que sempre faltou foi a coragem — e o método — para redesenhar a engrenagem. Agora, em plena febre da inteligência artificial, surge a tentação de acreditar que basta instalar ferramentas de ponta para que o serviço público subitamente funcione com agilidade olímpica. Trata-se de uma ilusão dispendiosa. De mais da mesma coisa.
Dados compilados pela empresa Xertica revelam um retrato desconcertante: 95% das iniciativas corporativas de inteligência artificial generativa falham em gerar qualquer impacto mensurável no resultado final. O motivo não repousa na tecnologia em si — os algoritmos atuais são extraordinários —, mas na incapacidade crônica de integrá-la à rotina real de trabalho. As instituições compram telas cintilantes e “prompts” milagrosos, mas preservam intactos os velhos hábitos burocráticos.
No ecossistema estatal essa ineficiência custa caro demais. O levantamento sistematizado pela Xertica lembra que a lentidão processual consome R$ 146 bilhões anuais ao país — cerca de 1,3% do PIB nacional —, enquanto mais de 80 milhões de processos aguardam desfecho. No ritmo habitual, seriam quinze anos apenas para drenar esse acervo. O estrangulamento não decorre de desídia funcional, mas da impossibilidade física de cérebros humanos cruzarem “terabytes” de informações, anteciparem prescrições e garantirem coerência em escala massiva.
É aqui que a gestão pública precisa se reinventar. Não se trata de substituir pessoas por robôs, nem de maquiar processos obsoletos com termos da moda. Como ensina a minoria de 5% que realmente alcança êxito, a virada exige focar em dores cirúrgicas, migrar do mero comando improvisado para a engenharia de contexto e manter o servidor rigorosamente no leme das decisões estratégicas. O algoritmo deve triar, organizar e acelerar; o discernimento ético e decisório permanece humano.
Reinventar o Estado exige desapegar do fetiche tecnocrático e abraçar a reengenharia de processos com transparência e responsabilidade. O futuro da governança não pertence a quem acumula licenças de software, mas a quem tem a audácia de transformar rotinas e entregar justiça em tempo hábil.
Pedro Valls Feu Rosa é jornalista, escritor e desembargador no Espírito Santo