A dificuldade em identificar situações de violência contra crianças e adolescentes, sobretudo quando ocorrem dentro do ambiente familiar, motivou a criação de uma nova estratégia de enfrentamento no Espírito Santo. A Assembleia Legislativa realiza, nesta quinta-feira (16), o lançamento do programa Guardiões da Infância, em cerimônia marcada para as 9h, no Plenário Dirceu Cardoso.
A proposta vai além de ações institucionais e aposta na capacitação direta de profissionais que atuam na linha de frente. A iniciativa pretende preparar equipes das áreas de educação, saúde, assistência social e conselhos tutelares para reconhecer sinais muitas vezes silenciosos de abuso, além de orientar sobre os procedimentos adequados de encaminhamento e acolhimento das vítimas.
Coordenado com apoio da Casa dos Municípios, o programa deve alcançar cidades de todo o estado, promovendo maior integração entre os serviços públicos e ampliando a capacidade de resposta diante de casos de violência. A expectativa é que a atuação conjunta fortaleça a rede de proteção e contribua para a prevenção.
O projeto foi idealizado pelo psicólogo forense Rafael Monteiro, que chama atenção para um cenário ainda pouco visível nas estatísticas. Segundo ele, grande parte das ocorrências permanece oculta, já que as vítimas, em sua maioria, não conseguem verbalizar o que vivenciam. “A criança demonstra por meio de comportamentos. Sem preparo, esses sinais passam despercebidos”, destaca.
Outro ponto de alerta é o crescimento da negligência emocional. Mesmo quando há presença física de responsáveis, muitas crianças enfrentam ausência de cuidado afetivo, o que pode aumentar a vulnerabilidade a diferentes formas de violência.
Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, indicam que o Espírito Santo registra, em média, 390 casos de violência contra crianças por ano. Especialistas, no entanto, avaliam que o número pode ser maior devido à subnotificação.
Diante desse contexto, o programa busca atuar diretamente com profissionais que têm contato cotidiano com o público infantojuvenil e que, muitas vezes, são os primeiros a perceber mudanças de comportamento. A qualificação desse olhar é vista como fundamental para interromper ciclos de violência ainda em estágio inicial.
Para o presidente da Assembleia, deputado Marcelo Santos, a iniciativa reforça a necessidade de suporte contínuo a esses agentes. Segundo ele, a eficácia da rede de proteção depende do preparo e da articulação entre os diferentes setores envolvidos, garantindo respostas mais rápidas e eficazes diante de situações de risco.