Cidade Geral

Mulheres que transformam a indústria no Espírito Santo

Márcia Reis e Mirela Souto são exemplos de lideranças femininas que superaram o preconceito e se destacam nas áreas de economia circular e sustentabilidade em terras capixabas

O setor de reciclagem e gestão de resíduos no Espírito Santo e no Brasil tem apresentado crescimento significativo nos últimos anos. No Mês da Mulher, dados revelam a força feminina dentro desse segmento, historicamente dominado por homens. O Anuário da Reciclagem aponta que as mulheres representam 56% do total de trabalhadores em organizações de catadores no Brasil, sendo responsáveis por sustentar o início da cadeia produtiva da reciclagem. Já o Movimento Nacional dos Catadores (MNCR) indica que, além de maioria nas operações, elas também ocupam cerca de 70% dos cargos de coordenação e presidência em cooperativas e associações.

Em terras capixabas, histórias inspiradoras reforçam esse protagonismo. Uma delas é a da empresária Márcia Reis, diretora e fundadora da empresa Recicla VIX, que enfrentou desafios para conquistar espaço em ambientes majoritariamente masculinos muito antes de ingressar no setor de reciclagem. Com trajetória no mercado de vendas de máquinas pesadas, Márcia aprendeu cedo que, para as mulheres, a competência muitas vezes precisa ser comprovada em dobro.

“Ser mulher nesse contexto significava trabalhar o dobro para provar competência, em uma época em que o machismo era muito presente”, recorda.

Há nove anos, ela decidiu migrar para o setor de reciclagem. A mudança representou mais do que uma transição de carreira: foi uma aposta visionária em um segmento que cresce impulsionado pela economia circular e pela necessidade de soluções sustentáveis. Partindo praticamente do zero, Márcia e seu sócio estruturaram uma empresa que hoje se tornou referência no Espírito Santo.

Mais do que gerir resíduos, a empresária destaca o impacto ambiental do trabalho desenvolvido. “Cada tonelada de alumínio reciclada evita a emissão de nove toneladas de CO₂. Hoje, meu propósito é abrir caminhos. Busco criar oportunidades para que outras mulheres ocupem cargos de destaque, sem as barreiras que enfrentei”, afirma.

Pioneirismo feminino na gestão de resíduos

Outra trajetória marcante no setor ambiental capixaba é a de Mirela Chiapani Souto. Atual presidente do Instituto Marca e diretora do SimReciclo (Sindicato das Indústrias de Reciclagem do Espírito Santo), Mirela iniciou sua atuação há cerca de 30 anos, quando recebeu a missão de estruturar o primeiro aterro sanitário privado do Estado.

À época, ela tinha apenas 27 anos e enfrentou o desafio de consolidar um modelo profissional de gestão de resíduos em um setor ainda em desenvolvimento. Sua atuação foi fundamental para a profissionalização da área, participando também do processo de emissão da primeira certificação ambiental do segmento no Espírito Santo.

Defensora da mudança de hábitos em relação ao consumo e ao descarte, Mirela acredita que a conscientização ambiental deve fazer parte do cotidiano da sociedade. Para ela, a gestão de resíduos vai muito além do descarte correto: trata-se de fortalecer um ciclo produtivo que gera valor econômico, social e ambiental.

“Há 30 anos, quando começamos a estruturar o primeiro aterro sanitário privado do Estado, o desafio era provar que a gestão de resíduos poderia ser um setor profissional, técnico e sustentável. Tenho muito orgulho de, como mulher, ter feito parte dessa construção. Hoje, vejo que nossa maior conquista não foi apenas a eficiência operacional, mas a mudança de mentalidade”, destaca.

Segundo Mirela, o papel das mulheres no setor continua sendo essencial para ampliar a visão sobre sustentabilidade e responsabilidade ambiental. “Meu papel, como liderança feminina nesse setor, é continuar mostrando às novas gerações que o resíduo não é o fim, mas o início de um ciclo de valor”, conclui.

Leia também