Cultura Geral

Thainan Castro estreia exposição inédita no ES

De Londres ao Espírito Santo: Thainan Castro estreia primeira exposição na Matias Brotas

Mostra “Tempo de Espera” reúne obras inéditas que investigam memória, espera e reconstrução a partir de cartas da década de 1940

A galeria Matias Brotas Arte Contemporânea, em Vitória, inaugura no próximo dia 12 de março de 2026 a exposição “Tempo de Espera”, primeira mostra individual do artista Thainan Castro no Espírito Santo. Radicado em Londres, o artista apresenta um conjunto inédito de trabalhos que investiga dois eixos centrais de sua pesquisa: a memória e a experiência da espera.

O ponto de partida da exposição surgiu a partir de um encontro inesperado com o passado. Durante uma visita a um mercado de rua, Thainan encontrou uma caixa contendo cartas escritas entre 1940 e 1952, enviadas por um homem identificado como John para Mrs. Vera Cook, durante o período da Segunda Guerra Mundial. As correspondências revelam relatos de saudade, promessas de retorno e reflexões sobre o tempo suspenso imposto pelo conflito.

A partir desse material, o artista transforma narrativas íntimas em imagens que refletem sobre o tempo da espera como experiência humana, convertendo histórias particulares em investigações visuais sobre ausência, expectativa e memória.

 

Para Lara Brotas, diretora da galeria, a exposição marca um momento significativo tanto na trajetória do artista quanto no diálogo que o espaço estabelece com pesquisas contemporâneas.

“Tempo de Espera marca a primeira exposição individual de um artista que já integra importantes coleções e que agora realiza sua primeira individual no Espírito Santo com uma pesquisa amadurecida, capaz de expandir o debate sobre memória, subjetividade e tempo”, afirma.

A dimensão biográfica atravessa de forma decisiva a mostra. Após sofrer um acidente que resultou na perda temporária de seus movimentos, Thainan Castro iniciou um processo de reabilitação que transformou profundamente sua prática artística.

Durante a recuperação no hospital, o artista passou a pedir que uma caneta fosse presa à sua mão, enquanto familiares, médicos ou visitantes movimentavam o papel a partir de suas orientações. O gesto, inicialmente terapêutico, tornou-se um ponto de inflexão em sua linguagem visual.

Com a recuperação física, o desenho passou a ocupar papel central em sua produção, funcionando simultaneamente como exercício corporal, prática de reconstrução motora e campo de experimentação artística.

No texto crítico que acompanha a exposição, a psicanalista Ruth Ferreira Bastos observa que “toda espera tem uma dose de angústia frente ao não saber sobre o que virá”. Nas obras de Tempo de Espera, essa tensão aparece como elemento estruturante das imagens.

Em muitos trabalhos, os personagens surgem de costas, voltados para o horizonte, recurso que amplia a identificação do público e desloca a narrativa para uma dimensão mais universal da experiência humana. A presença recorrente de figuras infantis introduz outra camada simbólica à mostra, em que a infância aparece como metáfora de recomeço e reconstrução.

Vivendo atualmente em Londres, Thainan Castro vem aprofundando pesquisas relacionadas à materialidade da pintura, à escala e à cor, incorporando também o erro e o acaso como partes do processo criativo. Embora já possua obras em coleções e exposições no Brasil, esta é a primeira vez que o artista realiza uma exposição individual no Espírito Santo, em um retorno simbólico ao estado.

Como desdobramento da mostra, a Matias Brotas promove a ação “Tempo de Espera”, que convida o público a vivenciar a escrita de cartas como gesto simbólico de memória e presença. A proposta dialoga diretamente com o núcleo conceitual da exposição, que nasce de cartas históricas transformadas em obra.

Durante a inauguração e ao longo de todo o período expositivo, os visitantes poderão escrever uma carta à mão, que será enviada ao destinatário indicado, com o envio realizado pela própria galeria. A iniciativa transforma um gesto cotidiano em parte integrante da experiência artística, ativando no presente a vivência da espera.

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