Aos 15 anos, Rebeca superou um tratamento oncológico, retomou os estudos e projeta o futuro ajudando outras crianças
Aos 15 anos, Rebeca Vitória dos Santos Martins comemora uma conquista que vai além da aprovação no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes). Diagnosticada com um câncer agressivo aos nove anos, ela enfrentou três anos de tratamento contra um neuroblastoma localizado entre a coluna e o intestino. Hoje, recuperada, vê no Ifes a chance de transformar a própria história em cuidado com o outro.
Durante o tratamento, precisou se afastar da rotina escolar e de atividades típicas da infância, como o balé. A confirmação do diagnóstico veio após meses de investigação médica, no Hospital Infantil Nossa Senhora da Glória, em Vitória, o que exigiu que a família deixasse a cidade de origem para acompanhar o tratamento.
Fé e resistência durante o tratamento
Segundo a mãe, Carme dos Santos Martins, a filha surpreendeu pela maturidade e força desde o início. “Quando o médico falou que era câncer, ela perguntou se era maligno. Eu disse que sim. E ela respondeu: ‘Mãe, pior do que o meu câncer é não acreditar no seu Deus’”, relembra.
Foram anos marcados por cirurgia, baixa imunidade e mudanças profundas na rotina. “Ela ficou carequinha, passou por tudo o que quem vive isso conhece. Mas, nos piores momentos, era ela quem me fortalecia e dizia: ‘Vai passar’”, contou a mãe.
Acolhimento além do tratamento médico
Durante esse período, a família contou com o apoio da Associação Capixaba Contra o Câncer Infantil (Acacci), que acolheu Rebeca e a mãe por cerca de três anos em Vitória, oferecendo suporte multidisciplinar enquanto o tratamento era realizado longe de casa.
Para a superintendente executiva da Acacci, Luciene Sales Sena, o cuidado com crianças e adolescentes em tratamento oncológico envolve uma atuação integrada de diferentes profissionais. “A ideia é que a criança não fique estagnada. Mesmo em tratamento, ela tem direito de continuar brincando, estudando e se desenvolvendo, ainda que de formas adaptadas”, explica.
Segundo Luciene, a instituição atua em conjunto com equipes multidisciplinares — formadas por médicos, assistentes sociais, profissionais da educação e outras áreas — além de secretarias municipais e estaduais de Educação, para garantir que esses pacientes tenham acesso a aulas adaptadas, acompanhamento escolar e atividades lúdicas que funcionam como reforço pedagógico e emocional.
A superintendente da Acacci reforça que essas ações têm um papel fundamental na recuperação. “Além do estudo, essas medidas ajudam a criança a pensar no futuro, a sonhar e a se reconhecer para além da doença”, afirma.
Um sonho que nasceu da dor
A vivência com o câncer influenciou diretamente os planos de Rebeca para o futuro. A jovem passou para o Técnico Integrado em Alimentos no Campus de Itapina, em Colatina, e sonha em cursar Nutrição e trabalhar com pacientes em tratamento oncológico. “Ela diz que quer ajudar outras crianças que passam pelo que ela passou”, relata a mãe.
Após a cirurgia e a retirada do tumor, Rebeca retomou os estudos com dedicação. A aprovação no Ifes simboliza não apenas a conquista acadêmica, mas a retomada da rotina e a construção de novos projetos de vida.
“Minha filha é uma esperança”, resume Carme. “Essa vitória não é só nossa. É dos médicos, dos enfermeiros, da Acacci e de todos que estiveram com a gente. Hoje, ela está aqui para contar essa história”.