Decisões iniciais definem o sucesso do investimento no campo
Antes de levar mangueiras, emissores e filtros para dentro da lavoura, produtores rurais precisam tomar decisões estratégicas que vão muito além da compra de equipamentos. A implantação de um sistema de irrigação por gotejamento, considerada uma das tecnologias mais eficientes do agronegócio moderno, exige planejamento técnico detalhado e leitura cuidadosa das condições da área. Escolhas feitas ainda no papel podem significar economia de água, aumento de produtividade e maior vida útil do sistema — ou, no sentido oposto, prejuízos e retrabalho.
Com o avanço das mudanças climáticas e a necessidade de produzir mais com menos recursos, a irrigação ganhou papel central no planejamento agrícola. Dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) mostram que a ampliação da área irrigada é estratégica para garantir estabilidade produtiva, especialmente em regiões sujeitas a períodos prolongados de estiagem. Nesse cenário, o gotejamento se destaca por levar água e nutrientes diretamente à raiz da planta, reduzindo perdas por evaporação e lixiviação.
Para o engenheiro agrônomo Elídio Torezani, diretor da Hydra Irrigações, a eficiência do sistema começa muito antes da instalação. “O sucesso do gotejamento está diretamente ligado ao diagnóstico inicial. Conhecer a área, entender a cultura e avaliar a disponibilidade de água são passos que não podem ser ignorados”, afirma.
Um dos pontos centrais é o diagnóstico do solo e da cultura a ser implantada. Textura, profundidade, capacidade de retenção de água e desenvolvimento radicular influenciam diretamente o espaçamento entre gotejadores, a vazão dos emissores e o tempo de irrigação. Culturas diferentes respondem de forma distinta ao manejo hídrico, e a padronização pode comprometer o desempenho da lavoura.
Outro fator decisivo é a análise da água disponível. Não basta saber se há volume suficiente: a qualidade também importa. Parâmetros químicos, presença de sedimentos e matéria orgânica interferem na escolha dos filtros e na durabilidade do sistema. Segundo Torezani, muitos problemas operacionais poderiam ser evitados com análises prévias. “Entupimentos e falhas recorrentes geralmente têm origem na falta de avaliação da água antes do projeto”, explica.
A topografia do terreno é outro elemento que pesa no dimensionamento do sistema. Desníveis exigem compensações de pressão e ajustes no layout da rede para garantir que todas as plantas recebam a mesma lâmina de água. Em áreas inclinadas, pequenas diferenças de nível podem resultar em irrigação irregular, afetando o desenvolvimento das culturas.
Além da infraestrutura, o manejo precisa ser pensado desde o início. Definir rotinas de irrigação, fertirrigação e monitoramento facilita a operação diária e evita desperdícios. A automação, cada vez mais presente no campo, surge como aliada nesse processo, permitindo maior precisão e previsibilidade. “Quando bem planejada, a automação reduz falhas humanas e libera o produtor para decisões mais estratégicas”, destaca o engenheiro.
Por fim, especialistas alertam que a irrigação por gotejamento deve ser encarada como um investimento de longo prazo. Projetos mal dimensionados tendem a gerar custos extras com manutenção e substituição de equipamentos. Contar com suporte técnico especializado, desde a concepção até a operação do sistema, é um diferencial que impacta diretamente a rentabilidade.
“A irrigação não é apenas instalar tubos no campo. É uma solução técnica que precisa acompanhar o produtor ao longo dos anos”, resume Torezani. Em um cenário de recursos hídricos cada vez mais disputados, decisões bem fundamentadas na fase inicial do projeto podem ser o divisor de águas entre produtividade sustentável e perdas silenciosas na lavoura.