Artigo

ARTIGO – Tecendo a esperança

Ficou adormecido por muitos anos o oficio, a arte de tecer rendas em uma almofada com ajuda de bilros de madeiras, alfinetes e linha. Uma tradição da cultura popular canela-verde que estava quase perdida, digo quase, porque ainda tivemos senhorinhas lideradas pela mestra Dona Rosinha (Rosa Leão Malta), falecida em 2019, responsável por manter nas famílias e nas amigas mais próximas ainda viva essa arte secular, que quase sucumbiu devido o avanço da indústria têxtil, nobre arte de sustento das famílias do litoral de Vila Velha, mais precisamente na histórica Barra do Jucu, paraíso de tantos saberes e fazeres, que hoje através do atuante Grupo Barra da Renda, liderado desde 2016 pela incansável e talentosa  arquiteta Regina Maria Ruschi, vem resgatando, renovando as rendeiras através de cursos e oficinas, tendo hoje no grupo mais de 60 rendeiras,  dando destaque municipal e estadual à este patrimônio cultural quase perdido.

Originária da Europa e trazida para o Brasil pelos portugueses, temos este oficio espalhado mundo afora. Já foi muito comum termos rendas de bilro no Espirito Santo. Existem relatos e imagens de mais de um século que registram as rendeiras na Barra do Jucu, Guarapari, Conceição da Barra, São Mateus e Colatina. Importante lembrar um dito popular de que “onde há renda, há rede”, onde nas comunidades de pescadores cabia aos homens a pescaria, enquanto as mulheres teciam, e o lucro aferido se somava à renda para o sustento de famílias numerosas. Este resgate cultural ainda cabe hoje às mestras de mais de oitenta anos, que estão repassando, para um grande contingente de mulheres jovens e até crianças, essa arte tão especial e única.

 Fundamental conquista das Rendeiras de Bilro de Vila Velha foi ter aprovada, em maio de 2022, na Câmara Municipal a Lei nº 6.646, de autoria do vereador Joel Rangel, sancionada pelo prefeito Arnaldinho Borgo, que institui no calendário oficial do Município o “Dia Municipal da Rendeira de Bilro” a ser comemorado anualmente, no dia 20 de julho, data alusiva ao aniversário da grande mestra Dona Rosinha, sempre comemorado na Praça João Valadares , na Barra do Jucu com a tradicional  Roda de Rendeiras, exposição de produtos de Renda de Bilro,  barraquinhas de gastronomia local e muita música, principalmente das casacas e tambores das Bandas de Congo.

Mas, a arte dos bilros já alçou voo mais alto, foi tema do “Projeto de Extensão Design Joia – UFES”, por meio do seu Laboratório “LabDesignJoia” e que realizou no mês de maio passado uma oficina participativa com as Rendeiras de Bilro do Grupo Barra da Renda, na Barra do Jucu, com a participação também estudantes de diversos cursos da Ufes e profissionais ligados ao design de produtos, comunicação e marketing, e do ramo de joias. O intuito dessa oficina foi apresentar aos participantes as possibilidades de desenvolvimento de joias a partir da nossa cultura local que envolve a Renda de Bilro, fomentando o seu valor cultural, a produção local, inclusão social e renda, sustentabilidade e identidade territorial. Este projeto teve a coordenação do professor Marcos Antonio Spinassé. Visitando o atelier das Rendeiras de Bilro podemos presenciar a emoção dessas mulheres, tecendo a esperança, resgatando a história capixaba, em um rico sitio histórico e importante celeiro cultural que é a Barra do Jucu.

 

Por: Manoel Goes – Escritor, Curador Cutural e diretor no IHGES

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