No Dia Mundial Sem Tabaco, celebrado em 31 de maio, especialistas e autoridades de saúde reforçam o alerta sobre o crescimento do uso de cigarros eletrônicos entre adolescentes e jovens. Conhecidos popularmente como vapes, os dispositivos ganharam espaço nos últimos anos impulsionados por uma estética moderna, sabores variados e forte presença nas redes sociais, fatores que contribuem para a falsa percepção de que seriam menos prejudiciais à saúde.
A preocupação é tão grande que a Organização Mundial da Saúde (OMS) escolheu para a campanha do Dia Mundial Sem Tabaco de 2026 o tema “Desmascarando o apelo: combatendo o vício em nicotina e tabaco”. O objetivo é conscientizar a população sobre as estratégias utilizadas pela indústria para atrair novos consumidores, especialmente entre o público jovem.
No Espírito Santo, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) já emitiu alertas sobre os riscos associados ao uso dos cigarros eletrônicos e reforça que a comercialização, importação e propaganda desses dispositivos permanecem proibidas no Brasil por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Para a pneumologista Jéssica Polese, um dos principais desafios é desconstruir a ideia de que o vape seria uma alternativa segura ao cigarro convencional.
“O vape foi transformado em um produto atrativo para os jovens. Tem aparência moderna, sabores agradáveis e um marketing muito forte nas redes sociais. Isso reduz a percepção de perigo, principalmente entre adolescentes”, afirma.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, pelo menos 15 milhões de adolescentes entre 13 e 15 anos utilizam cigarros eletrônicos em todo o mundo. Em países que monitoram esse comportamento, crianças e adolescentes apresentam até nove vezes mais chances de usar vape do que adultos.
No Brasil, levantamentos da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), também apontam crescimento no uso dos dispositivos eletrônicos para fumar entre estudantes.
De acordo com a especialista, a nicotina presente nos cigarros eletrônicos continua sendo uma substância altamente viciante, capaz de provocar dependência e comprometer o desenvolvimento cerebral dos jovens.
“O cérebro do adolescente é mais vulnerável à dependência química. Quanto mais precoce é o contato com a nicotina, maior a chance de manutenção do vício na vida adulta”, alerta Jéssica Polese.
Além da dependência, os efeitos sobre o sistema respiratório também preocupam os profissionais de saúde. Entre os sintomas mais frequentes estão tosse persistente, irritação das vias aéreas, chiado no peito, falta de ar e redução da capacidade pulmonar.
Outro ponto de atenção é a EVALI (sigla em inglês para lesão pulmonar associada ao uso de cigarros eletrônicos), doença que já foi alvo de alertas da Sesa e pode evoluir para quadros graves de insuficiência respiratória, exigindo internação hospitalar.
Apesar da proibição no país desde 2009, os dispositivos continuam circulando no mercado informal e são amplamente divulgados em ambientes digitais, muitas vezes associados a estilos de vida modernos, comportamento e status social.
“O grande problema é que existe uma tentativa de normalizar novamente o consumo da nicotina. A embalagem mudou, a linguagem mudou, mas os riscos continuam existindo”, destaca a pneumologista.
Como forma de enfrentamento ao tabagismo, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento gratuito em 63 municípios capixabas. O atendimento inclui acompanhamento multiprofissional, orientação psicológica e suporte para pessoas que desejam abandonar a dependência da nicotina.
Neste Dia Mundial Sem Tabaco, o alerta das autoridades de saúde é claro: por trás das embalagens coloridas e do marketing atrativo, os cigarros eletrônicos continuam representando riscos importantes à saúde, especialmente para adolescentes e jovens em fase de desenvolvimento.